As palavras de Obama ao terror

Presidente muda retórica contra radicalismo islâmico da era Bush, mas suas ações não seguem o novo discurso

Stuart Gottlieb, Christian Science Monitor, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2010 | 00h00

Um dos muitos aspectos que define a estratégia de contraterrorismo do governo Barack Obama é seu empenho em mudar a retórica americana diante da ameaça do terror, particularmente do terrorismo islâmico. "A linguagem utilizada é importante", disse Obama em entrevista ao canal de TV árabe Al-Arabiya, logo após assumir a presidência.

Foram eliminados os termos usados na era George W. Bush, como "guerra ao terror", "Islã radical" e "jihadista". A Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca, em 2010, substituiu oficialmente a expressão "terrorismo islâmico" por "extremismo violento".

A finalidade dessa mudança semântica foi dupla. Em primeiro lugar, fazer da luta contra o terror um combate específico contra a Al-Qaeda e não contra o extremismo islâmico. De acordo com Obama, a ideia de uma luta contra o extremismo islâmico ajudou a criar um sentimento, após o 11 de Setembro, de que os EUA estão travando uma "guerra contra o Islã". E, na verdade, essa nova retórica está de acordo com a política de aproximação com o mundo muçulmano para, segundo o presidente, "criar uma nova parceria com base no respeito e nos interesses mútuos".

Em segundo lugar, é também um esforço mais amplo para aplacar o medo dos americanos do terrorismo islâmico, que, para Obama, é exatamente o objetivo dos terroristas.

Mudança ineficaz. Agora é justo perguntar se o uso de uma nova linguagem em relação ao terrorismo foi eficaz. Pesquisas recentes sugerem que não. A primeira, realizada pela Brookings Institution, de Washington, mostrou que entre 2009 e 2010, o número de árabes do Oriente Médio otimistas com o enfoque de Obama para a sua região caiu de 51% para 16%, e o daqueles que se disseram "desencorajados" com Obama subiu de 15% para 63%.

A segunda pesquisa, do Pew Research Center, mostrou que em agosto uma proporção menor de americanos tinha uma opinião favorável ao Islã (30%) do que cinco anos antes, durante o governo Bush (41%), e para um número maior de americanos (35%) o Islã fomenta a violência mais do que outras religiões (em 2002, eram 25%).

Essa tendência mostra que a utilidade da linguagem no combate ao terrorismo é limitada. Sim, o terrorismo é uma atividade alimentada pela propaganda - uma batalha para ganhar os corações e mentes e atrair novos recrutas para a causa. E é claro que a linguagem usada no combate ao terrorismo é crucial - exemplo disso foi a retórica contraproducente do "afugentá-los das cavernas" adotada pelo governo Bush. Mas se a retórica não condiz com a política, ou parece desprezar ou subestimar as ameaças, a credibilidade de toda uma estratégia contraterrorista pode ser arruinada. O governo Obama encontra-se nessa difícil situação.

Retórica. Quando vão mais além da linguagem sutil e das promessas sedutoras, o que os muçulmanos em todo o mundo veem é um governo que intensificou a guerra no Afeganistão; está matando um grande número de civis muçulmanos com os ataques de seus drones (aviões não tripulados); continua mantendo mais de mil presos em Guantánamo, Bagram e outras prisões; e dá apoio incondicional a Israel.

Essas políticas não atendem às expectativas do mundo islâmico e só tornam confusa a meta reiterada por Obama de aproximar os muçulmanos dos EUA e distanciá-los de extremistas.

No plano interno, um alto preço vem sendo pago pela retórica incoerente. Apesar de manter quase todas as táticas radicais da era Bush, a Casa Branca subestima constantemente as ameaças, mesmo diante do nítido aumento das atividades terroristas. Não é tarde demais para reverter essa tendência preocupante. E a Casa Branca deve começar se concentrando menos na retórica tranquilizadora, que não rendeu dividendos no plano interno e tampouco no externo, e expor de maneira franca as ameaças e as políticas empregadas para confrontá-las.

Por exemplo, no fracassado atentando a bomba contra um avião, no Natal de 2009, Obama qualificou o suspeito como um "extremista isolado", apesar das ligações dele com a Al-Qaeda. E a primeira reação do governo por ocasião de um atentado frustrado na Times Square, em maio, por um muçulmano americano treinado no Paquistão, foi dizer que aquele era um "fato excepcional". Não há dúvida de que a recusa do governo em falar abertamente do terrorismo islâmico custou-lhe a confiança da sociedade. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-ASSESSOR DE POLÍTICA EXTERNA E ESCRITOR DE DISCURSOS DE SENADORES AMERICANOS

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