As perspectivas para os EUA são promissoras

Enquanto a recessão chega ao Japão e ronda a Alemanha, os EUA crescem e geram emprego

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2014 | 02h02

Dois terços dos americanos acreditam que o país está no caminho errado, uma estatística que não mudou muito em três anos. Os resultados da eleição de meio de mandato foram apenas mais um reflexo dessa insatisfação difundida. No entanto, se olharmos para o restante do mundo, choca a maneira como os EUA estão se saindo bem em relação a outras grandes economias.

O Japão voltou à recessão e a Alemanha evitou por pouco cair em uma, que teria sido a sua terceira desde 2008. O presidente Barack Obama diz que os EUA produziram mais empregos em sua recuperação do que o restante do mundo industrializado junto.

Por quê? Muitos acreditam que a economia americana tem algumas vantagens inerentes sobre seus principais competidores - uma estrutura mais flexível, tradições empresariais mais fortes e uma sociedade demograficamente mais vibrante. Vem aí um novo livro fascinante dizendo que vocês ainda não viram nada.

The Accidental Superpower (A superpotência acidental, em tradução livre), de Peter Zeihan, começa com geografia, assinalando que os EUA são o maior mercado consumidor do mundo por uma razão - seus rios. Transportar bens por água é 12 vezes mais barato do que por terra (a razão porque civilizações sempre floresceram em torno de rios).

Os EUA, calcula Zeihan, têm mais vias navegáveis - da ordem de 28 mil quilômetros - que todo o restante do mundo junto. Por comparação, segundo ele, a China e a Alemanha têm cerca de 3.200 quilômetros cada. E todo o mundo árabe tem apenas 190 quilômetros. No entanto, isso é apenas o começo. "A maior rede fluvial do mundo se sobrepõe à maior área de terra cultivável do mundo, o Meio-Oeste americano."

Acrescente-se a isso os portos de águas profunda que são necessários para embarcar e desembarcar mercadorias no comércio mundial. Muitos países com linhas costeiras extensas possuem poucos portos naturais. A África, por exemplo, com uma linha costeira longa e acidentada, tem, segundo Zeihan, "somente dez locais com baías de capacidade protetora suficiente para justificar a construção de um porto".

Mercado consumidor. O contraste com os EUA é de novo chocante. Puget Sound, Baía de São Francisco, Baía de Chesapeake são os três maiores portos naturais do mundo. "A Baía de Chesapeake sozinha tem trechos mais compridos de instalações portuárias de primeira linha que toda a costa continental da Ásia, de Vladivostok a Lahore", escreve Zeihan.

Todos esses fatores criaram o maior mercado consumidor do mundo, que, por sua vez, cria um superávit de poupança privada e uma economia unificada e dinâmica notavelmente autossuficiente. As importações constituíram apenas 17% da economia americana em 2012, segundo o Banco Mundial, em comparação com 46%, na Alemanha, e 25%, na China - e o número americano cairá à proporção que os EUA importarem cada vez menos petróleo.

Muitas pessoas têm argumentado que a revolução energética dos EUA lhes proporcionará grandes vantagens econômicas. Zeihan concorda, mas enfatiza o quanto ela isolará os EUA do restante do mundo.

Durante a maior parte da história moderna, as fontes vitais de energia (no Oriente Médio) estavam muito distantes dos centros de produção econômica (na Europa ocidental e na América do Norte). Agora, porém, graças ao óleo de xisto, a América do Norte tem boa parte da energia de que precisa em casa. Ela tem menos necessidade de policiar rotas marítimas no Golfo Pérsico, tarefa que hoje garante, sobretudo, a passagem segura de petróleo da Arábia Saudita para a China.

Para Zeihan, o petróleo foi uma grande razão para os EUA terem se envolvido em outros países. À medida que mundo ficar mais conturbado, ele argumenta, há menos razões para os EUA gastarem sangue e riquezas para estabilizá-lo. Em certo sentido, Zeihan vê alguns dos mesmos distúrbios internacionais que Bret Stephens vê em seu espirituoso novo livro America in Retreat (Os EUA em retirada, em tradução livre).

No entanto, Zeihan argumentaria que a causa disso não é a fraqueza de Obama, mas o retorno lógico dos EUA a sua tradicional estratégia pré-1945, de prosperar longe das mazelas do mundo. Não tenho tanta certeza como Stephens ou Zeihan de que o restante do mundo está indo para o inferno. E não estou tão certo de que as vantagens dos EUA são principalmente estruturais. Quando se observam os últimos cinco anos, de novo em termos comparativos, as políticas públicas americanas realmente se destacaram no combate à crise econômica global de 2008.

Washington agiu com rapidez e criatividade de três maneiras - uma política monetária agressiva, uma política fiscal agressiva e uma reforma e recapitalização agressiva do setor bancário. Outros países ricos fizeram menos e tiveram um retorno mais problemático à normalidade.

Desde a resposta à crise financeira, Washington tem estado paralisada e polarizada. O mesmo não acontece, porém, com a totalidade da política americana. Fora de Washington, prefeitos e governadores estão cruzando linhas partidárias, criando parcerias com o setor privado, fazendo reformas e garantindo investimentos para um futuro crescimento.

Quando Tocqueville escreveu sobre os EUA, nos anos 1830, ele se admirou com a vitalidade de baixo para cima de suas cidades e vilarejos. Esse espírito americano continua vivo, não importa o que pensem os americanos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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