''As pessoas exercem a autocensura''

Para a cientista política cubana Miriam Leiva, uma das fundadoras do movimento Damas de Branco - que lutou pela libertação dos 75 dissidentes presos na última onda repressiva do regime de Fidel Castro, a "Primavera Negra de 2003" - a "apatia" em relação ao Congresso do Partido Comunista, atualmente em andamento, vem da "falta de liberdade de (o povo) expressar-se, após 52 anos de repressão". "Em Cuba, as pessoas nascem com uma atadura no cérebro", afirmou em entrevista ao Estado.

Guilherme Russo, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2011 | 00h00

"Tem de haver mudanças. A situação está tão difícil na economia, nas maneiras de resolver os problemas e na vida dos cubanos que o povo quer e precisa dessas mudanças", disse. "Existem grades até na forma de pensar das pessoas, que exercem uma autocensura", completou, afirmando que essa condição tirou de muita gente qualquer anseio de "modernização real" da economia e da sociedade.

Para Miriam, que ocupou altos cargos no Ministério do Exterior de Cuba antes de passar à dissidência do regime, "o povo quer um salário para buscar uma situação normal". Atualmente, a população em geral vive com, no máximo, US$ 20 ao mês.

A cientista política lembra que a "legalização da propriedade privada", principalmente nos mercados automobilístico e imobiliário, está entre as maiores esperanças dos habitantes da ilha.

O advogado cubano René Gómez Manzano explicou que os imóveis só podem ser trocados por outros similares, ou vendidos pelos "baixos valores estipulados pelo governo". Manzano informou que o comércio de carros funciona de maneira parecida, mas é regulado por uma empresa oficial e não diretamente pelo Estado.

"Tudo é muito burocrático. Não existe a propriedade plena se as pessoas não têm o direito de vender o que têm. Dizem que o congresso vai resolver isso, mas ninguém acredita." Mas, para Manzano, "os principais problemas dos cubanos são três: café da manhã, almoço e jantar".

"Tenho uma grande interrogação na cabeça. Não posso responder (se haverá mudanças efetivas em Cuba após o congresso). Se Raúl (Castro) mudou as diretrizes (das cerca de 300 propostas a ser ratificadas no evento), como dizem, algo deve mudar, mas não muita coisa", disse o economista cubano Oscar Espinosa Chepe.

Segundo o especialista, "na opinião pública cubana há muito ceticismo e indiferença" em relação ao encontro do PCC. "As pessoas já se frustraram muito com o regime, não esperam muito." Ex-integrante do regime por quase 20 anos e preso por "traição" depois de passar à dissidência, Chepe afirmou que, "em pelo menos um ponto", está de acordo com as mais recentes declarações de Raúl Castro. "Ele falou que estamos à beira do abismo, nisso concordo com ele", disse, afirmando que a única solução para a ilha é abandonar o socialismo e estabelecer parcerias entre Estado e iniciativa privada.

A reportagem entrou em contato com o governo cubano, mas não obteve resposta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.