Sergio Flores/ The New York Times
Sergio Flores/ The New York Times

As políticas 'linha-dura' de imigração de Trump vêm antes dos eleitores

O governo correu para construir o prometido muro de fronteira do presidente e impedir que os migrantes entrem nos Estados Unidos, mas o futuro dessas políticas será determinado pela eleição

Zolan Kanno-Youngs/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2020 | 19h02

TEXAS - A liderança do Departamento de Segurança Interna se reuniu na quinta-feira 29 para promover a quase conclusão de 400 milhas (644 quilômetros) do muro de fronteira do presidente Donald Trump.

“A única razão pela qual não chegamos a outra crise é por causa das políticas e procedimentos que esta administração implementou nos últimos anos, incluindo a construção de um sistema de muro de fronteira eficaz”, disse Chad F. Wolf, secretário de Segurança Interna em exercício, a repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. “Abolir essas medidas ou reverter o curso não é absolutamente o caminho a seguir”.

A imigração não foi o tema central da disputa entre Trump e Joe Biden, o candidato democrata, mas o futuro de algumas das políticas linha-dura do presidente na fronteira será determinado pelo resultado eleitoral.

O Departamento de Segurança Interna tem corrido para cumprir a promessa de Trump das 450 milhas de muro de fronteira antes do final do ano. A agência ainda está a cerca de uma semana do marco de 400 milhas, de acordo com funcionários da Alfândega e Proteção de Fronteiras, e quase todas as construções foram em áreas onde já existiam cercas ou barreiras em ruínas.

Mas a estrutura de aço na fronteira, partes construídas sem aprovação do Congresso, é uma espécie de monumento à determinação do presidente. Afetou o meio-ambiente, os proprietários privados e, dizem as autoridades de Segurança Interna, o trabalho dos agentes de fronteira.

Os líderes do departamento nos últimos dias percorreram o país, inclusive em Estados ainda em disputa na eleição, para enfatizar as prisões de rotina pela Imigração e Fiscalização da Alfândega, criticar os democratas e detonar as chamadas políticas de cidades e Estados-santuários. A agência também ergueu outdoors na Pensilvânia para alertar sobre indivíduos que foram presos ou condenados por crimes nos Estados Unidos e libertados.

Tudo isso aumentou as críticas de que o departamento se tornou um braço da campanha de Trump. “Há política partidária por trás disso, não razões operacionais”, disse David Lapan, um ex-porta-voz dos Departamentos de Segurança Interna e Defesa de Trump. “Ao longo do governo Trump, o DHS foi visto como cada vez mais politizado.”

Para Entender

Trump ou Biden? Ferramenta mostra quem venceria hoje nos EUA

A cada dia fazemos 10 mil eleições simuladas, com dados das pesquisas mais recentes, para estimar o resultado mais provável em cada Estado e no colégio eleitoral

O órgão sem fins lucrativos do governo americano Oversight solicitou que o inspetor geral do Departamento de Segurança Interna investigasse se a liderança sênior violou a Lei Hatch, que proíbe funcionários federais de se envolverem em atividades políticas no trabalho.

Em frente a uma fila de agentes da Patrulha de Fronteira, Wolf rejeitou as críticas e defendeu políticas que efetivamente interromperam a migração pela fronteira sudoeste, deixando famílias em esquálidos acampamentos de tendas em algumas das áreas mais perigosas do México.

Propostas democratas

As autoridades de Segurança Interna também atacaram as propostas políticas de Biden, que se comprometeu a interromper imediatamente a construção de muros e encerrar o programa "Permanecer no México", que obrigou dezenas de milhares de migrantes a esperar no México por audiências judiciais sobre pedidos de asilo.

Mark A. Morgan, o comissário interino da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, disse que as políticas adotadas por Biden levariam a uma "invasão" de migrantes, embora ele reconhecesse que a maioria dos migrantes que cruzaram a fronteira no ano passado não era de criminosos, mas famílias que fogem da pobreza.

Questionado em uma entrevista se ele estava preocupado sobre como a sua linguagem poderia criar a percepção de uma ameaça violenta, o Sr. Morgan respondeu na defensiva. “Isso é o que as pessoas querem imediatamente, dizer que estamos sendo xenófobos, racistas, certo?” disse, acrescentando: “Não tenho problema em dizer que a grande maioria daqueles que tentam entrar ilegalmente nos Estados Unidos não é de pessoas más, certo? Mas alguns são. Então, minha pergunta é, quantos?”

A maioria das travessias ilegais para os Estados Unidos nos últimos anos foi no Vale do Rio Grande, no Texas, mas apenas 11 quilômetros do muro foram construídos na área.

Proprietários de terras privadas no sul do Texas dizem que o muro cortará suas fazendas e propriedades. Eles forçaram o governo Trump a passar pelo árduo processo de afirmar domínio eminente no tribunal. Para cumprir as prometidas 450 milhas de Trump, o governo concentrou a construção em áreas de propriedade do governo federal, em terrenos que já impedem a passagem da fronteira.

O chefe Rodney S. Scott, da Patrulha de Fronteira, reconheceu que o Vale do Rio Grande “era a maior prioridade para a Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos”. Mas, ele acrescentou, "decidimos ir em frente e mudar para uma prioridade mais baixa porque eu poderia fazer a diferença naquele momento".

Essa abordagem danificou os ecossistemas e interrompeu a migração de animais selvagens ameaçados, disse Laiken Jordahl, um ativista da região fronteiriça do Centro de Diversidade Biológica.

“Esta celebração de 400 milhas não é insignificante”, disse ele. “Isso é algo que as comunidades e as nações indígenas em toda a fronteira estão de luto. Isso marca 400 milhas de destruição.”


O governo Trump garantiu cerca de US$ 15 bilhões (R$ 86 bilhões) para construir 731 milhas de muro de fronteira, com grande parte do dinheiro transferido do Departamento de Defesa e fundos que foram apropriados pelo Congresso para projetos de construção militar e interdição de narcóticos.

Com o prazo final do presidente se aproximando, o governo intensificou os litígios contra proprietários de terras no sul do Texas. Ele entrou com 106 ações judiciais este ano para pesquisar, apreender e potencialmente começar a construção, um aumento em relação a 27 ações movidas em 2019, disse Ricky Garza, advogado do Texas Civil Rights Project. O governo federal abriu 22 processos apenas em setembro.

“Este é um ataque à nossa cultura, nosso patrimônio, nossa própria identidade, e é por isso que estamos lutando”, afirma Melissa Cigarroa, uma proprietária de terras que disse que o governo ameaçou processá-la pelo acesso a sua propriedade no condado de Zapata, no Texas. "Sentimos isso visceralmente."

Autoridades de Segurança Interna dizem que o muro da fronteira é crítico. Isso permitiu à agência canalizar a migração para áreas específicas, onde podem posicionar estrategicamente agentes da Patrulha de Fronteira para prender migrantes. Eles dizem que isso liberou esses agentes para fazer mais prisões em vez de responder às famílias em busca de proteção.

Este mês, a agência deve registrar o maior total mensal de travessias ilegais no ano, disse Wolf. Mas o bloqueio não veio de uma parede de aço e sim de uma teia de mudanças na política, especialmente a política "Permanece no México", que forçou mais de 60 mil migrantes a voltar para aguardar as datas dos tribunais e ter seus pedidos avaliados.

O departamento também usou uma declaração de emergência de saúde pública para devolver rapidamente os migrantes, incluindo crianças desacompanhadas, ao México ou a seus países de origem, sem oferecer chances de que seus pedidos de asilo sejam ouvidos.

Embora o departamento tenha afirmado que a regra evitou a propagação de doenças nos Estados Unidos, os advogados de imigração afirmam que ela conflita com as leis de imigração que afirmam que os migrantes devem ter a chance de ter seu medo de perseguição em seus países de origem ouvido quando pisam em solo americano.

O Sr. Morgan empurrou novamente. “Há momentos em que o desejo e a necessidade de alguém pedir asilo são substituídos por algo de muito maior valor”, disse ele, “e isso é a vida dos cidadãos americanos”.

Ele acrescentou que os migrantes ainda tiveram a oportunidade de ter medo de tortura avaliado por um oficial de imigração, embora essa triagem seja muito maior do que a triagem para perseguição.

Morgan disse que o governo mexicano não verificou relatos de violência generalizada contra migrantes no México, mas as organizações de defesa da imigração registraram centenas de ataques contra as pessoas forçadas pelos Estados Unidos a retornar ao México, com algumas divulgando gravações de tentativas de extorsão por cartéis.

O Sr. Morgan culpou os migrantes.“Eles estão deixando intencionalmente o ambiente protegido, envolvendo novamente as organizações de contrabando, mesmo quando lhes foi dito para não fazer, para tentar entrar ilegalmente nos Estados Unidos”, disse. “É quando eles estão se expondo”. / TRADUÇÃO DE ANDREZA GALDEANO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.