As preocupações de Israel

A renúncia de Mubarak deixa muita gente feliz, particularmente na Praça Tahrir, mas também nos países ocidentais, principalmente nos EUA, onde Obama se congratulará. E deixa também um país particularmente infeliz, Israel. Há oito dias, Jerusalém temia esse resultado, que vê como pesadelo.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

Essa saída põe por terra 20 anos de diplomacia israelense e coloca o Estado judeu em uma posição precária. Israel se encontra totalmente só no meio de uma constelação de países árabes, alguns mais hostis do que outros. O "complexo de isolamento", que persegue o Estado judeu desde sua criação, retoma força. E se justifica.

Entre todos os países árabes, só o Egito de Mubarak mantinha relações cordiais com Jerusalém. Outro país árabe se mostrou benevolente por muito tempo: a Jordânia, mas há alguns meses as relações entre os dois esfriaram. Outro grande país muçulmano, mas não árabe, a Turquia, também foi aliado fiel de Israel, mas os dois países tiveram um grave atrito, há um ano, quando uma embarcação turca tentou forçar o bloqueio da Faixa de Gaza. Portanto, deve-se concluir que o Egito de Mubarak era, até ontem, o último aliado de Israel em toda a região.

Em Jerusalém, foram analisados cenários catastróficos. Um deles diz respeito ao fornecimento de gás, 40% garantido hoje pelo Egito. Se os sucessores de Mubarak decidirem fechar os gasodutos, Jerusalém será condenada a grave penúria. Uma experiência de semelhante desastre ocorreu no fim de semana passado, quando terroristas atacaram um duto no Sinai, lembrando aos israelenses até que ponto dependem dos egípcios.

A queda de Mubarak fragiliza não apenas o sistema diplomático de Israel, mas sua situação militar. Hoje, o tratado de paz entre os dois países permite a Israel desguarnecer sua fronteira ao sul.Sem Mubarak, esse "tratado de paz" poderá caducar. O Exército de Israel terá portanto de se postar nessa nova fronteira. E isso obrigará o Tsahal, as forças de defesa de Israel, a adiar a idade de desmobilização para os períodos do serviço obrigatório, limite fixado hoje nos 40 anos.

Em seu desespero, nos últimos dias o governo de Jerusalém se agarrava a uma esperança: a de que o sucessor de Mubarak seria seu vice-presidente, o general Omar Suleiman, bem conhecido por Israel. Suleiman sempre se mostrou seu aliado honesto. Além disso, Suleiman travava luta feroz contra os "islâmicos" egípcios, ou seja, contra os inimigos mortais de Israel. Assim, se ele ocupar o lugar de Mubarak, o Estado judeu poderá esperar uma trégua.

Por enquanto, esse ponto continua pouco claro. Se foi de fato Suleiman que anunciou a saída de Mubarak, ele falou em deixar novamente o poder nas mãos do Exército. De todo modo, e mesmo no caso de Suleiman figurar entre os chefes do novo poder militar, nada garante que as pessoas da Praça Tahrir, epicentro da "revolução", aceitem que o ex-chefe do serviço de espionagem exerça papel importante. Na Praça Tahrir, nos últimos dias, Suleiman era alvo das mesmas ofensas dirigidas a Mubarak. O porta-voz da revolta, certo Naguib, gritava: "Hosni Mubarak e Omar Suleiman são os dois maiores criminosos do Egito." E a multidão brandia sapatos, pantufas, chinelos na direção de ambos. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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