Wakil Kohsar/AFP
Wakil Kohsar/AFP

As primeiras pistas de como o Taleban governará o Afeganistão; leia o artigo

Em algumas áreas, grupo tem tentado tranquilizar afegãos, mas há diferenças gritantes entre regiões já controladas pelos extremistas

ASHLEY JACKSON/ THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 05h00

Ações e acusações sobre como o Taleban conquistou o controle do Afeganistão tão rapidamente, há uma dura verdade que precisa ser reconhecida: eles passaram anos se preparando para uma eventual retirada dos EUA. Apesar dos inúmeros reforços militares, incansáveis ataques aéreos e milhares de mortos por todos os lados, ninguém foi capaz de detê-los. 

Ano após ano, os soldados do Taleban metodicamente ganharam terreno conforme coagiam e cooptavam grande parte da população atualmente vivendo sob o domínio deles e estabelecendo um Estado paralelo. O Taleban aproveitou a raiva contra os abusos das forças estrangeiras e a corrupção do governo afegão para ganhar apoio vilarejo após vilarejo. A questão agora é que tipo de governo o grupo vai impor e o que isso significará para os afegãos.

Até certo ponto, o mundo já sabe como vai funcionar, porque o Taleban basicamente tem controlado partes do Afeganistão há anos. E, mesmo assim, é mais fácil conquistar território com uma insurreição do que governá-lo. Essa foi uma das lições mais dolorosas para o Taleban nos anos 90, quando ele rapidamente chegou ao poder, mas foi um desastre na hora de governar. Portanto, nós ainda não sabemos como o Taleban pretende governar a nação como um todo.

O governo deles já é rudimentar e sobrecarregado. Existem diferenças gritantes entre as áreas profundamente conservadoras, que há muito tempo têm estado sob a influência do Taleban, e as áreas mais urbanas e relativamente mais avançadas, as quais ele assumiu o controle recentemente. 

Há poucos indícios de que o Taleban esteja equipado para governar as cidades – ou o país como um todo – sozinho. A complexidade social do Afeganistão tem mais nuances do que a simples divisão urbana-rural, mas desde 2001, de modo geral, os moradores das cidades se beneficiaram mais da segurança, da ajuda e das oportunidades proporcionadas pela intervenção internacional. As mulheres se movimentavam com relativa liberdade, trabalhavam e frequentavam escolas, e as normas sociais divergiam em grande escala da mentalidade do Taleban.

Em áreas que o Taleban tem controlado há muito tempo, os tribunais aplicam sua versão da lei islâmica e resolvem as disputas. O Estado paralelo do Taleban nomeou funcionários para monitorar escolas e regulamentar clínicas administradas por ONGs. Mas seu governo é amplamente parasita, buscando receber crédito pelo que os outros fornecem. Os serviços públicos dependem fortemente de programas de ajuda e assistência estrangeira. Os subsídios respondem por cerca de 80% das verbas orçamentais do Afeganistão. É quase certo que ambos diminuirão rapidamente sob qualquer governo do Taleban.

Passei grande parte da minha carreira no Afeganistão e, durante esse tempo, entrevistei muitos membros do Taleban e centenas de afegãos vivendo sob o controle deles. Entre as centenas de afegãos que encontrei ao longo dos anos, poucos apoiavam o grupo. A maioria usa sua obediência ao Taleban para reduzir o sofrimento. Alguns até mesmo persuadiam os insurgentes a se comportarem mais como o governo responsável que eles diziam que gostariam de ser. Dependendo de quão bem a população local negociasse ou quanta pressão exercesse, as políticas do Taleban – por exemplo, se as meninas podiam frequentar a escola no ensino fundamental – eram diferentes de um lugar para outro.

Nos últimos meses, alguns combatentes do Taleban têm até mesmo tentado tranquilizar a população e assumido o controle das instituições governamentais para que elas continuem funcionando. Em algumas cidades, como Kunduz, surgiram relatos de oficiais do Taleban tentando persuadir os funcionários públicos a voltarem ao trabalho. Em outros lugares, como em partes da Província de Ghazni, no entanto, há relatos de retaliação do Taleban contra qualquer pessoa associada ao governo ou às forças de segurança e de destruição de propriedade.

O Taleban, de modo geral, encara uma escolha: sitiar, buscar vingança e destruir os vestígios da intervenção pós-2001 ou absorver o que pode e fechar acordos com aquelas pessoas e facções que podem ser persuadidas a cooperar. Não está claro nem mesmo se o Taleban sabe o que quer. Consciente de que o mundo está assistindo, sua liderança política está ansiosa para conter a mídia negativa e evitar se tornar um Estado pária, como era nos anos 90.

“Somos servos do povo e deste país”, disse Suhail Shaheen, um porta-voz do Taleban, à BBC no domingo. “Garantimos às pessoas no Afeganistão, principalmente na cidade de Cabul, que suas propriedades e suas vidas estão fora de perigo – não haverá vingança contra ninguém.” Depois da tomada de Cabul, o mulá Abdul Ghani Baradar, em uma mensagem por vídeo, encorajou os milicianos a mostrarem “humildade”.

Mas os líderes militares e combatentes do Taleban talvez não estejam de acordo sobre tudo. Embora o Taleban já tenha dito que não vai se vingar daqueles associados ao antigo governo, há relatos de acerto de contas, ataques retaliatórios e possíveis crimes de guerra. Suas tropas geralmente são compostas por jovens, com pouca educação política e mal preparados para a vida após a guerra. “A maioria tem 18 ou 20 anos”, disse-me Zahir, estudante universitário em Faryab. “A única coisa que eles sabem sobre o governo é como matar as pessoas que trabalham para ele.”

Muitos afegãos com quem conversei nas cidades temem o pior, lembrando-se de como era a vida sob o governo do Taleban antes de 2001. Pode-se dizer que as áreas urbanas sofreram mais, pois representavam perigo moral e corrupção para o Taleban. 

“Como o Taleban parece estar se sentindo triunfante, estamos vendo práticas nos locais que muitas vezes são impossíveis de se considerar diferentes daquelas dos anos 90”, disse Heather Barr, que trabalha na divisão de direitos das mulheres da Human Rights Watch. “Não parece haver nenhum Taleban 2.0.”

Um verdadeiro teste para o Taleban será saber se ele pode governar – e governar com – aqueles que discordam radicalmente dele. A história recente oferece a lição de que acordos políticos excludentes não se sustentam: o Afeganistão é grande e diverso demais, e a política excludente repetidamente semeou conflitos. Isso provou-se verdade em 2001, quando o Taleban foi excluído do Acordo de Bonn, que reconstituiu o Estado afegão depois da invasão americana – assim como nos anos 90, quando o Taleban se recusou a acolher seus adversários.

O melhor que se pode esperar é que o novo governo do Taleban seja mais pragmático do que o anterior, admitindo que a ajuda e o reconhecimento internacionais são essenciais para sua sobrevivência. Mas não importa como o Taleban decida governar, os países ocidentais terão de encontrar uma maneira de confrontá-lo com relação a contraterrorismo, direitos humanos e questões humanitárias. Cortar o relacionamento agora anulará qualquer influência que os EUA e outras nações possam ter deixado e relegará os afegãos ao pior destino de todos.

*É AUTORA DE ‘NEGOTIATING SURVIVAL: CIVILIAN-INSURGENT RELATIONS IN 

AFGHANISTAN’ E VIVEU NO AFEGANISTÃO DE 2009 A 2012 E DE 2017 A 2019

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