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As proezas da premiê britânica

Erro de May conseguiu ressuscitar uma facção já moribunda do trabalhismo

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2017 | 05h00

Há dias que seria melhor ficar na cama, enrolar-se no cobertor e voltar a dormir. É isso que deve estar se dizendo a primeira-ministra britânica, Theresa May. Em 8 de abril, ela teve a ideia de convocar eleições gerais para reforçar a maioria que tinha na Câmara dos Comuns visando às conversações, no dia 19, em Bruxelas, sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), o Brexit.

Nessa ideia inesperada, o mundo (e eu mesmo, confesso) percebeu o toque de gênio de May. “Ó gênio, ó loucura, vizinhança assustadora”, dizia Victor Hugo. No caso, não se tratou de gênio, mas de burrice. No dia seguinte à votação que deveria projetar May na constelação das grandes figuras da história, ela se viu de joelhos, esperando o golpe de misericórdia. Um general no comando de um quartel em ruínas.

Difícil imaginar o leque de calamidades que a premiê encarou, mas foram muitas: perdeu a autoridade sobre o próprio governo; seu adversário tory, George Osborne, já mostra os dentes; seus ministros da Economia e do Exterior, Philip Hammond e Boris Johnson, esperam sua hora. Se os deputados conservadores retirarem a confiança, ela perderá seu posto de chefe de governo. E quem assumirá um cargo agora tão exposto?

Mas é no dia 19 que esse governo em derrocada vai enfrentar sua prova mais difícil: o início das negociações sobre o Brexit. Em Bruxelas, as facas estão prontas para serem sacadas. Como um poder humilhado poderá encarar as exigências da Europa? Que tipo de Brexit os britânicos escolherão defender? Será o Brexit feroz, exigido pelos conservadores radicais que querem dar adeus definitivo à Europa, ou será o Brexit de May, um Brexit duro, é verdade, mas que mantém certas vantagens da UE, como união aduaneira e livre mercado?

Outra hipótese é que o governo de May seja devorado daqui até lá. Nesse caso, a Europa terá de falar não mais com os conservadores, mas com os trabalhistas de Jeremy Corbyn. Então, a UE teria pela frente um adversário bem mais flexível, menos empedernido que a atual premiê ou qualquer outro conservador. Terá sido, então, um êxito de May: devolver à vida um político que todos diziam acabado.

Do alto de sua elegância, a chefe de governo não poupou esse velho esquerdista, perdido atrás de sua barba em seu século 20. Debochando, ela evocava em seus comícios a hipótese burlesca de um Corbyn primeiro-ministro, a cargo das conversações com a UE. “Imagino”, dizia, “Jeremy sozinho e nu na sala de negociações.”

A proeza de May é brilhante. Ela não se limitou a devolver a vida a um “já era”. Ressuscitou, entre os trabalhistas, uma de suas figuras mais arcaicas, um “1968”, ou seja, um homem que pertenceu a um movimento pré-histórico, a uma ideologia que inflamou apenas alguns carneiros e cabras burgueses que pastavam na grama rasa do Platô do Larzac, ou um punhado de intelectuais vetustos ainda obstinados em fumar o cachimbo de Jean-Paul Sartre nos cafés de Saint-Germain-des-Prés.

A façanha de Theresa May foi reanimar no Reino Unido um trabalhismo (ou socialismo) que parecia mumificado desde o dia em que Tony Blair abriu o Partido Trabalhista à modernidade e jogou fora os arcaísmos da luta social. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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