Lorraine O'Sullivan / AFP
Lorraine O'Sullivan / AFP

As quatro alternativas para Boris Johnson após derrota no Parlamento

Primeiro-ministro pode negociar acordo, adiar o Brexit, renunciar ou até mesmo ser preso

Griff Witte / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2019 | 21h00

Depois de uma semana de derrotas em série, Boris Johnson está sem opções. O primeiro-ministro britânico quer desesperadamente convocar uma nova eleição para desfazer o nó do Brexit. Seus opositores rejeitaram essa alternativa uma vez, e repetiram a negativa nesta segunda-feira, 9.

Enquanto isso, Johnson disse que "preferiria morrer em uma vala" do que buscar uma extensão do prazo de 31 de outubro para deixar a União Europeia.

Mas é exatamente isso que a legislação aprovada pelo Parlamento na semana passada exige que ele faça se não puder fazer um acordo com a UE até 19 de outubro.As negociações com a União Europeia? Seus ministros dizem que mal estão acontecendo.

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Então, para onde vai o primeiro ministro?

Ele provavelmente terá que fazer algo que descartou anteriormente ou violar uma lei ou convenção que levaria o Reino Unido a uma profunda crise constitucional. Alguns de seus aliados do Brexit, até mesmo os mais linha-dura, estão pedindo para que ele se torne "um mártir" da causa e vá para a cadeia.

Embora isso seja altamente improvável, muitos dos acontecimentos da política britânica nos últimos dias foram considerados virtualmente impossíveis há pouco tempo.

Johnson poderia renegociar um acordo com a UE

Talvez a solução mais direta para a crise seja a que atormenta o Reino Unido há quase três anos: negociar um acordo de retirada com a UE. 

Os defensores da linha dura do Brexit, incluindo o primeiro-ministro, menosprezaram o acordo que sua antecessora, Theresa May, estabeleceu durante seu mandato, sendo derrotada no Parlamento três vezes. Johnson prometeu conseguir um acordo melhor, usando a ameaça de uma saída sem acordo como alavanca.

Mas a UE se recusou a ceder, e as principais autoridades europeias disseram que não viram sinal de qualquer negociação substantiva. 

Membros do gabinete de Johnson, como Amber Rudd, uma ministra que renunciou no sábado à noite em protesto contra a expulsão de 21 colegas conservadores moderados, disse à BBC no domingo que "não fazia ideia" do que o governo britânico estava buscando na Europa e que houve pouco esforço no governo para resolver o impasse.

Johnson estava em Dublin na segunda-feira, encontrando seu colega irlandês, Leo Varadkar, para tentar avançar em uma das perguntas mais espinhosas do Brexit: como evitar a criação de uma fronteira entre a República da Irlanda, membro da UE, e a Irlanda do Norte, que faz parte do Reino Unido. 

Mas Varadkar disse em uma entrevista coletiva na manhã de segunda-feira que Johnson ainda não havia apresentado propostas sólidas. Ambos os líderes concordaram que os dois lados permanecem distantes.

Johnson poderia pedir um adiamento do Brexit

Derrotas humilhantes no Parlamento na semana passada significam que Johnson não poderá legalmente levar o Reino Unido à beira de uma saída sem acordo em 31 de outubro. Em vez disso, ele precisará pedir mais um adiamento à UE. Ele disse que não fará isso.

Ele reiterou essa promessa na semana passada, dizendo aos membros do Partido Conservador em uma carta na sexta-feira que o Parlamento havia “aprovado uma lei que me forçaria a implorar a Bruxelas por uma extensão do prazo do Brexit. Isso é algo que eu nunca farei”.

Mas Johnson não é exatamente conhecido por manter sua palavra. Ele poderia pedir à UE por mais um adiamento e lançar uma campanha difamando a oposição, que o forçou a fazê-lo. Mas os eleitores pró-Brexit, que ignoraram muitos dos inimigos de Johnson, podem não perdoá-lo por isso.

É mais provável que ele apresente os pedidos de adiamento formais por um atraso com a esperança de que a UE não o concederia. Tal extensão exigiria apoio unânime dos 27 outros Estados membros.

Há sinais de que a paciência com o circo político britânico está acabando. O ministro do Exterior da França, Jean-Yves Le Drian, ameaçou vetar uma prorrogação no domingo, citando uma "preocupante" falta de progresso.

Os defensores do Brexit se aproxima das ideias do primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, que tem pouco amor por Bruxelas e muito em comum com o populismo anti-União Europeia de Johnson. Mas isso é provavelmente mais fantasia do que realidade. Diplomatas da UE dizem que uma extensão do prazo provavelmente seria aprovada.

Johnson poderia renunciar

Parece loucura. Mas o caminho mais seguro de Johnson para reforçar seu trabalho pode ser desistir. A lógica é a seguinte: Trabalhistas e outros partidos da oposição se recusam a dar a Johnson a eleição que ele deseja, condenando-a como "uma armadilha" que daria ao primeiro-ministro uma porta dos fundos para nenhum acordo.

Mas Johnson poderia voluntariamente se afastar ou apresentar uma moção de não-confiança contra seu próprio governo. Alguém teria que assumir o cargo, seja o líder do Partido Trabalhista Jeremy Corbyn ou uma figura mais neutra, como o recém-expulso parlamentar do Partido Conservador, Kenneth Clarke. Esse governo pediria à UE por uma extensão do Brexit.

Teria então que haver uma nova eleição. Johnson poderia fazer campanha com o argumento de que o Parlamento, mais uma vez, bloqueou a vontade do povo e manteve o Reino Unido na UE.

Com pesquisas mostrando os conservadores bem à frente do Partido Trabalhista, e com o líder do Partido do Brexit Nigel Farage aventando a possibilidade de um pacto com os conservadores, uma nova votação poderia dar a Johnson a maioria sem coalizão de que ele precisa para levar o Reino Unido ao Brexit - se não em 31 de outubro, então qualquer que seja o próximo prazo.

Johnson poderia ir para a cadeia

Parece ainda mais louco. Mas a idéia do primeiro ministro terminando atrás das grades está recebendo muita atenção em Londres. Johnson recusou-se a confirmar que vai cumprir a lei que exige que ele busque uma extensão da UE.

O ministro das Relações Exteriores Dominic Raab disse ao Sky News no domingo que o governo planeja "testar ao limite" os requisitos da lei. Enquanto isso, assessores seniores que não quiseram se identificar disseram ao Sunday Times que o governo planeja "sabotar" a lei e "levar uma serra elétrica para qualquer coisa" que esteja no caminho de uma saída sem acordo da UE. 

O ex-procurador-geral Dominic Grieve, do Partido Conservador, escreveu no Sunday Observer que o descumprimento da lei significaria que o primeiro ministro "estaria desrespeitando o tribunal e poderia ser enviado para a prisão".

Alguns defensores do Brexit parecem gostar da ideia. O ex-líder conservador Iain Duncan Smith pediu a Johnson que viole a lei e se torne "um mártir" para a causa do Brexit.

Mesmo que Johnson não fosse preso, ignorar a lei poderia ser uma maneira de ele ficar manipular o tempo: ele não é obrigado a pedir a prorrogação até menos de duas semanas antes do prazo de saída, o que significa que qualquer processo contra ele poderia ficar limitado ao trâmite nos tribunais. 

A probabilidade é de que a ameaça de ignorar a lei acabe sendo um blefe, que terá um bom desempenho entre os eleitores pró-Brexit. Mas esses são tempos estranhos na política britânica, com alguns observadores veteranos alimentando pensamentos sombrios sobre para onde tudo isso está indo.

Como disse o jornalista e historiador sênior Andrew Marr no domingo em seu programa de entrevistas da BBC: "Nosso sistema político, nossa constituição, está começando a desmoronar".

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