Jenny Chimayo/Estadão
Jenny Chimayo/Estadão

As raízes sociais da fragilidade peruana

Analistas veem instabilidade constante como um fruto de divisão social e sistema partidário fraco

Jenny Chimayco, especial para o Estadão

22 de novembro de 2020 | 05h00

Giorgio Oneto, de 33 anos, lembra-se com medo da noite em que 15 esferas de chumbo perfuraram seu corpo. Ele nunca tinha ido a uma manifestação. Mas, vendo o que considerava um ultraje à democracia, não hesitou em sair às ruas para protestar. Não estava sozinho: ele e sua namorada se viram acompanhados por milhares de jovens em Lima e em praticamente todas as regiões do país.

Em 14 de novembro, no segundo protesto nacional contra a posse de Manuel Merino como presidente do Peru, após a destituição do popular Martín Vizcarra, Giorgio participou do que deveria ter sido uma mobilização pacífica. E o fez usando luvas de soldador, para desarmar as bombas de gás lacrimogêneo que pensou que a polícia lançaria.

“De repente, eles começaram a atirar indiscriminadamente contra a gente. Levei 13 tiros nas costas e 2 nos braços. Tive muita sorte, porque um estourou o boné que eu estava usando. Enquanto fugia, senti os tiros me atingindo, mas não tinha escolha a não ser correr para salvar a minha vida”, lembra, mostrando as marcas no corpo.

Uma das coisas que mais irrita Zoé Sandoval, de 25 anos, é a indiferença. Sentado num banco de pedra, o jovem relembra o que o motivou a sair às ruas para protestar: “Estou convencido de que a democracia não é apenas um direito, mas também um dever que nos impele a defendê-la e a agir sempre que sofre um ataque.”

Ele é o filho mais novo de uma família de pai de Lima e mãe de Trujillo. Estudou ciências políticas na Universidade Antonio Ruiz de Montoya e adora ler. Confessa que, durante a pandemia de covid-19, fez o necessário para se proteger de um possível contágio. Mas, na noite de 9 de novembro, quando viu que o Congresso aprovara a vacância do cargo de Vizcarra – com 105 votos a favor, 19 contra e 4 abstenções – decidiu que era hora de ir às ruas e levantar a voz contra o que ele considerou um ataque à democracia.

“É como se o terreno estivesse cheio de pólvora e bastasse a faísca de uma tentativa de ditadura para explodir tudo”, diz Zoé. Mais uma vez, estouraram as mobilizações noturnas, tanto na Praça San Martín, em Lima, quanto em dezenas de outras no país. Em alguns bairros residenciais, as manifestações foram acompanhadas por panelaços, sinal do descontentamento da população diante do que acontecia no Parlamento.

Ao sul de Lima, Alejandro Saavedra, de 39 anos, fita o horizonte. É arquiteto e há alguns anos decidiu fugir do agito da cidade e ir morar na praia com os pais. Mesmo que se identifique com a indignação com a classe política, ele não compartilha da posição dos que protestam, pois se considera um firme defensor das instituições e do sistema democrático. 

“Essa manifestação se produziu perante um processo de vacância constitucional e quer derrubar um presidente interino (Manuel Merino), que assumiu o cargo de acordo com os mecanismos previstos na nossa Constituição”, afirma.

Para Alejandro, os acontecimentos recentes no Peru foram impulsionados por jovens que empregaram mal suas energias ao protestar contra um procedimento democrático. Além disso, ele diz que há grupos de esquerda que querem mudar a Constituição, aproveitando a corrente que tem percorrido a América Latina desestabilizando alguns regimes. A esses grupos se somariam oportunistas políticos que querem tomar o poder, além da imprensa, que vive da publicidade estatal.

Ele argumenta que a democracia não pode se tornar “o governo daqueles que fazem mais barulho”. “Estamos diante de uma geração em que abundam pessoas ignorantes e sem educação, resultado de experiências educacionais fracassadas. Essas pessoas não leem ou leem muito mal, não são capazes de debater uma ideia sem se sentirem ‘agredidas’ ou ‘ofendidas’ e descartam o antigo pelo simples fato de ser antigo”, afirma.

Para Iván Lanegra, secretário-geral da Associação Civil de Transparência, a mais recente crise política reflete as divisões da sociedade peruana. Essas diferenças marcantes são uma amostra das raízes históricas da diversidade peruana. Em menos de cinco anos, o Peru passou por dois Congressos e quatro presidentes. 

“Somos um país com grande diversidade cultural e étnica, e a isso se somam fatores estruturais históricos, tais como: Lima versus províncias, campo versus cidade, formal versus informal, além do empobrecimento de algumas áreas rurais, dos abusos contra os cidadãos, entre muitas outras coisas.”

Soma-se a isso a crise dos anos 1980, que implicou na perda de prestígio dos partidos políticos e deu início a uma longa lista de presidentes e Congressos formados por partidos criados ad hoc para cada eleição. O resultado, segundo Iván Lanegra, professor de ciências políticas da Pontifícia Universidade Católica do Peru, é a fórmula perfeita para uma política distante dos cidadãos e imprevisível.

“Temos os números mais altos de desconfiança na política da América Latina e isto se expressou nas ruas. Estamos diante de uma situação em que se definiram quais são os limites da democracia: formar um governo de maneira ilegítima, sem ouvir o povo, é inaceitável. E reprimir a população sem motivos também é inaceitável.”

Omar Owapara, cientista político da Universidade Peruana de Ciências Aplicadas, considera que os últimos acontecimentos são um reflexo daquilo que o Peru vem arrastando há vários anos: o colapso dos partidos nos anos 80, a crise econômica e a violência terrorista. Além da crise dos anos 90, quando uma lógica mais antipolítica e antipartidária se acentuou no governo de Alberto Fujimori.

Desde então, foram poucas as tentativas de formar partidos robustos. Hoje, há coalizões de independentes, que se formam em torno dos processos eleitorais e depois perdem peso, afirma ele. “Não há políticos com histórico nesses partidos e fica a ideia de que qualquer um pode ganhar uma eleição. Provavelmente, o boom econômico que o Peru viveu desde 2002 camuflou esses problemas que vinham se arrastando desde muito tempo.” 

De acordo com Owapara, antes de estourarem os protestos, havia 20 anos de letargia. A última grande marcha foi a dos Cuatro Suyos – em referência às quatro regiões em que se dividiu o Império Inca – quando Fujimori se preparava para começar seu terceiro mandato. “É, portanto, surpreendente que esta geração do bicentenário, que cresceu em um período de boom econômico e democracia, tenha liderado um protesto descentralizado, repentino, que cruzou as barreiras sociais, culturais e de gênero.” 

As duas marchas nacionais deixaram duas mortes: Inti Sotelo Camargo, de 24 anos, que chegou ao hospital com ferimentos de arma de fogo no tórax, e Bryan Sánchez, de 22, que morreu com 11 balas, no rosto, cabeça e tórax. 

A eclosão social do Chile, vizinho com quem os peruanos cultivam forte rivalidade, influenciou os protestos contra a saída de Vizcarra. O Peru nunca tinha visto uso tão intenso das redes sociais para convocar mobilizações, buscar desaparecidos e registrar abusos policiais. O espaço também foi usado de diferentes formas, por meio de projeções em edifícios e protestos de ciclistas.

Para Lanegra, a participação política dos peruanos vem crescendo desde 2014. Se a isto se somar os conflitos entre Executivo e Legislativo, temos a receita certa para que os acontecimentos da semana passada voltem a ocorrer no Peru. / TRADUÇÃO DE RENTATO PRELORENTZOU

 

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