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As razões da visita

PARIS - Ontem, o presidente francês, François Hollande, chegou a Washington para uma visita de Estado. É uma honra rara e Hollande, bastante afetado pela ruptura com sua antiga companheira, Valérie Trierweiller, e por sua queda vertiginosa nas pesquisas, está em busca de agrados. Um protocolo cuidadoso, delicado e chique. E 21 tiros de canhão, o que é sempre prazeroso.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2014 | 02h06

O primeiro compromisso de Hollande, em Monticello, em Virgínia, foi uma visita à casa de Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos EUA (1801-1809), ao qual a França vendeu, em 1803, a Louisiana - o equivalente a cerca da metade do território americano na época - por um preço ínfimo.

A visita de três dias é um mistério: a França não tem uma fama muito boa nos EUA. Para os jornais americanos, Paris é pretexto para zombaria, compadecimento, piadas e menosprezo. A recente epopeia erótica de Hollande com a atriz Julie Gayet fez morrer de rir até o último campônio de Connecticut.

O próprio Obama não dá muita atenção à Europa. Sua diplomacia deu uma guinada em direção à Ásia. Um dia desses, a secretária dos EUA para Assuntos Europeus, Victoria Nuland, disse em conversa que deveria ser particular: "F... a UE", o que não foi nada polido.

Portanto, qual a razão da visita de Hollande? Há duas explicações. A primeira é negativa: há alguns meses, Obama concordou com a França que os países atacariam a Síria de Bashar Assad. No último momento, a Casa Branca mudou de ideia: os EUA decidiram resolver, com a Rússia, o problema das armas químicas sírias. E o pobre Hollande ficou sozinho, soprando sua trombeta, ridículo, e foi obrigado a cancelar às pressas os planos de bombardear a Síria.

Há uma segunda explicação, positiva. Na África. Hollande, com um destemor que não imaginávamos nele, interveio duas vezes e teve sucesso: inicialmente, no Mali e, em seguida, na República Centro-Africana.

Alguns acreditam que a consideração reservada a Hollande obedece a objetivos mais longínquos, mais obscuros. Obama avaliou, talvez, que a oscilação de sua diplomacia para a Ásia não significaria um afastamento da Europa, continente que começa a sair lentamente da crise econômica e controla alguns postos de comando da geopolítica moderna. Obama se deu conta disso recentemente, por exemplo, com o relatório sobre as relações do Ocidente com o Irã. A França desempenhou um papel crucial nos debates.

A visita ao memorial de Jefferson seria o prelúdio de uma ofensiva na direção da Europa. Daqui a um mês, Obama fará sua primeira visita a Bruxelas para uma cúpula com a UE - evento delicado para o presidente.

Se as relações com a Grã-Bretanha se baseiam na confiança, o mesmo não ocorre com o restante da Europa. O país europeu mais poderoso, a Alemanha, está muito descontente com os EUA. Madame Merkel não aceitou nem a indiferença da América na perigosa questão da Ucrânia nem a mania de espionar da Agência de Segurança Nacional. Portanto, Obama buscaria atalhos secretos para dar alguns passos na Europa, especialmente na Alemanha. Como Hollande mantém relações de grande confiança com Merkel, talvez ele pudesse desempenhar esse papel rumo ao coração da Europa. De Merkel, particularmente.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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