As razões de Pequim para recusar-se a ''fazer mais''

Uma coisa me espanta nesta crise que envolve a Coreiado Norte: os EUA parecem querer terceirizar não só os seus empregos para a China, mas também sua diplomacia. ''Isso cabea China'' e ''A China pode fazer mais'' são as frases que surgemde instituições de pesquisa em Washington e do governo americano.E ai que as exortações fáceis sucumbem.Considero ingenuidade esperar que a China faça mais'', ou, nas palavras do ex-embaixador americano na ONU John Bolton, ''possa acabar com essa coisa amanhã''. Em primeiro lugar, ha uma tola suposição em Washingtonde que seus interesses (uma Coreia do Norte sem armas nucleares)são os mesmos que os da China. Não são. O primeiro interesseda China e garantir que o regime de Kim Jong-il não desmorone.O segundo interesse da China? Assegurar que o regime de Kim não desmorone. Da perspectiva de Pequim, as armas nucleares de Pyongyang ocupam algo em torno do décimo lugar.Por que o interesse? Se a Coreia do Norte desmoronar, algumascoisas ocorrerão. Primeiramente, cerca de 2 milhões de pessoas cruzarão para o nordeste da China como refugiados. Seria uma sobrecarga enorme para a já precária infraestrutura chinesa. Em segundo lugar, a China enfrentara uma decisão difícil: enviar seu Exercito a Coreia do Norte? O que ocorrerá se esse Exercito cruzar o caminho de tropas sul-coreanas ou americanas avançando para o norte?Em terceiro, lembram de todo aquele investimento sul-coreano na China? Estamos falando de bilhões. Ele voltaria paracasa, para construir um pais unificado.A China é a maior parceiracomercial da Coreia do Sul. Em quarto, um colapso norte-coreano significa que a China teria de esquecer da perspectiva de tornar a Coreia do Norte um Estado economicamente vassalo. Toda instalação de mineração ou industrial com alguma perspectiva de lucro já e alvo de investimentos chineses. Se Kim desmoronar, as empresas chinesas perderão espaçoPara as sul-coreanas. Em quinto, uma Península Coreana unificada mudaria a posição geopolítica da China.Hoje, Pequim tem um Estado tampão ''comunista'' em suafronteira.Um Estado excêntrico, mas ao menos e ''comunista''.Uma das historias mal noticiadas na China e a profundidadeda influencia cultural sul-coreana sobre os chineses.No Ocidente, gostamos de pensar que os jovens da China são ''ocidentalizados'' ou ate ''americanizados''.A realidade e que eles são ''sul-coreanizados''.Em sexto, a população étnica coreana da China ao longo dafronteira da Coreia do Norte não e famosa por sua rebeldia.Mas o que ocorrera com ela diante de uma Península Coreanaunificada? Uma Grande Coreia, talvez? Outro fator interferenos problemas da região: durante décadas, os EUA pensaram que poderiam fazer da China uma aliada. Tiveram poucosucesso em arrastar a China para a batalha contra a URSS.Ha muito falatório em Washington, ultimamente, sobre o ''G-2'' e como EUA e China juntos resolverão os problemas mundiais. Na Península Coreana - onde a China e EUA travaram uma guerra suja há 59 anos - , esses pressupostos encalharam.Não podemos terceirizar a solução das armas nucleares da Coreia do Norte para a China porque a China vê seus interesses de maneiramuito diferente do que nos vemos. Claro, a China prefeririaque Pyongyang não tivesse a bomba. Mas se tiverde escolher entre uma Coreia do Norte nuclear e nenhumaCoreia do Norte, Pequim ficara com a primeira opção. São nessas consequências que a China pensa quando Washington pedemais ação de Pequim. E o que fará Pequim? Minha aposta e que se limitara a encorajar mais conversações. *John Pomfret escreve o blog ''Pomfret´s China'' em washingtonpost.com, do qual este artigo foi adaptado

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