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As razões de Pyongyang

A obstinação norte-coreana para obter armas nucleares não é mero capricho dos Kims

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2017 | 05h00

Como em todos os anos no mês de agosto, um exercício militar conjunto de EUA e Coreia do Sul se desenrola na Península Coreana. E, como em todos os anos, a movimentação fantástica das forças dos dois países deixa a Coreia do Norte em transe. “Ninguém ignora que esses exercícios ponham lenha na fogueira”, disse o jornal Rodong Sinmum, de Pyongyang. “E ninguém ignora que podem levar a um conflito aberto.”

Essas preocupações se tornaram especialmente vivas e dignas de crédito neste ano, e por várias razões. Donald Trump, com sua característica imprudência, ameaçou a Coreia do Norte com as piores punições depois que Pyongyang realizou recentemente impressionantes testes de mísseis balísticos.

Às maldições lançadas por Washington (“prometemos para a Coreia do Norte fogo e fúria como o mundo jamais viu”), o líder norte-coreano, o jovem Kim Jong-un, respondeu anunciando que dispararia seu novo míssil em 15 de agosto sobre Guam, estratégico território americano no Pacífico. Mas Kim recuou rapidamente e ofereceu uma trégua antes de lançar seu “fogo sobre Guam” a fim de, como explicou, poder observar um pouco mais “o comportamento estúpido dos americanos”. Foi uma détente, mas sem afrouxar o nível de alarme. 

Nestes dias sombrios, as manobras de Washington e Seul são acompanhadas de perto. Aparentemente, os EUA estão fazendo de tudo para evitar que esse exercício anual não provoque demais os norte-coreanos. O formato das manobras conjuntas está mais modesto que o de anos anteriores. No ano passado, os exercícios reuniram 25 mil militares americanos e 50 mil sul-coreanos, além de 460 mil funcionários dos dois países. Neste ano, o contingente americano foi reduzido para não mais de 18 mil soldados. Embora tenha sido anunciada a presença de dois porta-aviões e de submarinos, eles não foram vistos até agora.

O estado de espírito na Coreia do Sul também indica apaziguamento. Em Seul, um novo presidente sucedeu à equipe “guerreira” que reinava até recentemente. Defensor do diálogo, Moon Jae-in procurou esvaziar as manobras de seu veneno, dizendo que eram “estritamente defensivas”.

Na queda de braço entre Trump e Kim, quem está levando vantagem? À primeira vista, a questão é risível. Como pode um pigmeu opor-se a um Hércules, ainda mais quando o pigmeu gosta de assumir um papel de bufão? Neste ano, porém, o duelo entre o anão e o gigante ficou menos desequilibrado – não apenas porque o gigante é ainda mais bufão que o anão, mas porque o anão já tem bombas nucleares e, sobretudo, motores para mísseis balísticos capazes de levá-las longe.

Entende-se por que, para um grande número de observadores, Kim seja no momento o vencedor. Trump, mais uma vez, pecou pela bazófia. Ele disse que Washington não toleraria uma Coreia do Norte capaz de ameaçar os EUA. Acontece que o problema ficou mais complicado, com Kim tendo meios para concretizar essa ameaça.

A excelente especialista Juliette Morizot resumiu: “Trump aliviou o lado de Kim Jong-un reforçando a unidade do povo norte-coreano. Além disso, semeou a discórdia entre os aliados regionais. A própria Coreia do Sul ridicularizou a pressão americana ao assegurar que não deseja guerra na península”.

Um enigma persiste: como a Coreia do Norte conseguiu chegar, num espaço de poucos anos, a produzir um míssil tão poderoso e confiável como o que vimos no teste? Sem entrar nos detalhes técnicos, saltemos para as conclusões. Tudo leva a crer que o país pôs a mão nos planos do motor RD-250, que equipava desde 1970 os mísseis balísticos intercontinentais soviéticos. Não é por magia que esses planos estejam na Coreia do Norte. Seria preciso, porém, juntar James Bond e os espiões de John Le Carré, e fazer um giro por Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia para refazer sua trajetória. O fato concreto é que os mísseis de longo alcance da Coreia do Norte voam.

Desse quadro, tiram-se outras lições. Há muito anos, nos perguntamos por que um país tão pobre, a Coreia do Norte, é tão obstinado em se dotar de armas nucleares, ainda que isso signifique sacrifícios enormes. Hoje, no entanto, entendemos que o país se pauta há anos não por uma quimera, mas por uma política racional. 

A Coreia do Norte viu que a renúncia de países como Iraque ou Líbia a armas atômicas permitiu a Guerra do Iraque de Bush e a destruição total da Líbia do coronel Muamar Kadafi. Essa é, sem dúvida, a chave da obstinação tida por doentia, mas, na realidade, lógica, da estranha dinastia norte-coreana dos três Kims. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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