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As razões do presidente

O carinhoso Vladimir Putin não estendeu sua mão misericordiosa apenas à tripulação do navio do Greenpeace. Entre os agraciados por seu perdão, está um dos condenados mais famosos do mundo, Mikhail Khodorkovski, preso desde 2003, na Sibéria, a 6 mil quilômetros de Moscou.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2013 | 02h07

É uma notícia importante. Khodorkovski é um exemplo da história caótica da Rússia depois do fim da URSS. Ele nasceu em Moscou, em 1963, de pai judeu e mãe russa ortodoxa. Ainda criança, distinguiu-se por ser um aluno brilhante e, mais tarde, cursou a faculdade de química.

Posteriormente, foi um membro ativo do Komsomol, a juventude comunista, antes de se tornar um destacado militante do Partido Comunista. Quando chegou a perestroika, de Gorbachev, não hesitou em lançar-se no mundo dos negócios e logo reuniu um pequeno capital. Depois da queda da URSS, o capital aumentou de maneira fantástica, como num conto de fadas.

A fada que tocou com sua varinha mágica o jovem brilhante chamava-se Boris Ieltsin. Foi Ieltsin, o presidente da Rússia, esse personagem vulgar, grosseiro, bêbado e meio louco que fabricou, como se fosse no meio de uma bebedeira, esses nababos que frequentemente encontramos à frente de clubes de futebol na Grã-Bretanha ou em Mônaco.

Em 1995, na época da privatização das empresas estatais russas, Khodorkovski comprou o grupo petrolífero Yukos por US$ 360 milhões. Nove anos mais tarde, em 2004, o Yukos tinha se tornado um mastodonte e valia US$ 27 bilhões.

Por que razão, com Putin no poder, Khodorkovski foi parar no banco dos réus? Oficialmente, foi vítima da caça às bruxas que Putin lançou contra as "práticas mafiosas" da era Ieltsin (lembremos que o próprio Putin foi instalado na presidência por Ieltsin).

"Por que então, se há alguns meses, a Justiça anunciara que haviam sido descobertas novas infâmias e perversidades de Khodorkovski, Putin decidiu agora libertá-lo? Oficialmente, com a série de indultos comemoram-se os 20 anos da Constituição russa, mas não devemos esquecer dos Jogos Olímpicos de Inverno, organizados em Sochi, que começarão no dia 7 de fevereiro.

Barack Obama acaba de anunciar que nenhum membro do seu gabinete estará presente. Pior ainda: a Casa Branca decidiu incluir na delegação oficial americana uma militante da causa homossexual, a ex-campeã de tênis Billie Jean King. O francês François Hollande também anunciou que não vai.

As duas jovens russas, as Pussy Riot, que ridicularizaram Putin e cometeram sacrilégio na igreja ortodoxa de Moscou, também devem ser libertadas. A anistia libertará cerca de 20 mil presos. Então, nas prisões russas restarão apenas 800 mil. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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