Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

As razões pouco sinceras

O

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2014 | 02h01

rei de Espanha, Juan Carlos (76 anos), abdica. Um pouco mais tarde, o próprio soberano explicou sua decisão na televisão. Por que uma decisão tão grave? "Para servir ao interesse geral", é claro, e também para dar lugar a uma geração mais jovem, no caso, ao príncipe das Astúrias, Felipe (46 anos).

De fato, o príncipe Felipe tem uma bela estampa de rei. Tem bom porte físico, uma eterna barba de três dias e um prontuário judicial virgem, o que pode ser um grande trunfo mesmo numa família real.

Assim, as explicações generosas fornecidas por Juan Carlos para explicar seu afastamento parecem plausíveis. Infelizmente, elas são falsas. Qualquer espanhol conhece as verdadeiras razões dessa partida. Juan Carlos foi mais franco alguns meses atrás quando disse, diante de um corpo diplomático boquiaberto: "Eis-me de novo na oficina. Vou precisar de mecânicos brilhantes para me recolocar no prumo." Naquele dia, Juan Carlos fazia alusão à oitava operação a que seria submetido desde 2009. O "corpo real" havia se transformado num "corpo artificial" no qual se caçou um tumor no pulmão, colocou uma prótese no joelho, reparou um tendão de aquiles, instalou um quadril artificial, etc.

Na verdade, porém, o rei refletia secretamente sobre outros infortúnios que há dois anos acentuam e precipitam o declínio da monarquia espanhola. Tudo começou com um acidente de caça em 2012. O rei havia pronunciado um belo discurso no qual se apiedava e se indignava com a ideia de mães de família acuadas na pobreza sem poder alimentar seus bebês. Alguns dias depois, um despacho informava a Espanha que seu rei tinha se ferido durante uma caçada de elefante em Botsuana cujo custo beirava os 37 mil. Coisa feia! E, depois, havia o genro, o playboy Inaki Urdangarin, sob suspeita de ter desviado 6 milhões de dinheiro público do lucro de uma fundação dita sem fins lucrativos, Juan Carlos, depois de tergiversar um bocado, acabou por excluir o genro intempestivo e sua mulher (a filha de Juan Carlos, Cristina) das cerimônias oficiais. Essa Cristina cometeu então uma besteira: ela se exilou com seus quatro filhos em Genebra, o que provocou irritação na Espanha: "Como? Um membro da família real em fuga, não será uma confissão de culpa?"

E aí vai mais um defeito. Voltamos aqui ao capítulo do "corpo do rei", não para enumerar suas próteses, desta vez, mas para narrar-lhe as proezas, que não agradaram nem um pouco a Espanha tradicional. Soube-se que Juan Carlos tinha uma amante terna e muito misteriosa, uma princesa ou uma intrigante germano-dinamarquesa, muito bela, chamada Corinna zu Sayn-Wittgenstein, com a qual ele não só se entrega ao adultério e aos prazeres eróticos, mas para a qual teria pago, durante seis anos, uma luxuosa habitação. Fizeram de tudo para abafar o caso, mas a bela germano-dinamarquesa "meteu os pés pelas mãos" ao explicar com a ingenuidade que faz o charme desse tipo de Alteza, que de fato "ela havia tratado de assuntos delicados para o Estado espanhol entre 2006 e 2007". Que assuntos? Num país onde o desemprego atingia 26%, essas revelações sobre a dolce vita do rei e seus desbordamentos eróticos causaram indignação. Nas pesquisas, a sanção foi imediata: 53% dos espanhóis manifestaram uma opinião desfavorável do rei.

E depois, ao puxarem esse fio "erótico", os espanhóis desenrolaram uma curiosa maçaroca. O príncipe Felipe é, de fato, o herdeiro que vai garantir a sucessão. Mas esse herdeiro será mesmo o verdadeiro primogênito de Juan Carlos? De vez em quando, há alguns anos, veem-se surgir aqui e ali outros filhos reais.

Primeiro houve aquela mulher chamada Maria José Ruelle, resultado de amores entre Juan Carlos, então com 16 anos, e a princesa de Savoie, de 14. O encontro havia se produzido durante um daqueles "cruzeiros de reis" que, a cada ano, reúnem uma multidão de altezas no iate "Agamemnon". Garota, chamada Maria José, foi confiada na Argélia a um casal de artesãos italo-espanhóis. Depois disso surgiram outros "bastardos". Assinale-se um homem nascido em 1956, um catalão abandonado após seu nascimento, e também uma dama belga, Ingrid Sartiau. Testes executados na Bélgica provaram que esse homem e essa mulher são irmãos. Eles pediram para Juan Carlos se submeter ao mesmo teste, Silêncio.

São esses escândalos e besteiras que acompanharam a queda sistemática da monarquia na opinião pública. Essa queda foi ainda mais consternadora e violenta porque o rei tinha anteriormente uma imagem muito positiva para o povo espanhol: hoje, até essa imagem está sendo objeto de críticas, e quase de uma reavaliação. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.