As repercussões da morte de um paquistanês

Assassinato de Salman Taseer, governador de Punjab e muçulmano moderado, mostra aos EUA que o Paquistão é uma dor de cabeça muito maior do que a Casa Branca imagina

David E. Sanger, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2011 | 00h00

Na semana passada, o assassinato de Salman Taseer, governador do Punjab e um dos políticos mais moderados do Paquistão, foi chocante. No entanto, a reação dos paquistaneses - a começar pela chuva de pétalas de rosas sobre o sorridente assassino - abalou o governo de Barack Obama no momento em que a Casa Branca tenta convencer os americanos de que Islamabad é um aliado comprometido com a luta contra o terrorismo.

"Tudo o que se passou nos últimos dias é um lembrete de como ainda estamos perdendo terreno no Paquistão", disse um funcionário do governo que lida com o país, mas pediu anonimato porque a crítica ao Paquistão é evitada a todo custo. Três dúvidas afligem os americanos. O Paquistão está se aproximando do Ocidente? Os EUA podem tratar com o governo eleito do país, mas não com seus militares? O arsenal nuclear paquistanês está realmente protegido?

Sobre a primeira questão, o assassinato deixou poucas dúvidas de que está se gestando uma guerra civil no Paquistão, um conflito que não está confinado às regiões onde operam o Taleban e a Al-Qaeda. A batalha é entre os que acreditam que o país deve ser um Estado islâmico secular e os extremistas religiosos que pretendem assumir o controle do governo.

Sobre o segundo tema, Obama já falou sobre dialogar com o governo democraticamente eleito do Paquistão, a começar pelo presidente Asif Ali Zardari, amigo e aliado de Taseer. O assassinato, porém, enfraqueceu Zardari, tanto que os principais líderes do país não foram ao funeral e sinalizaram que retirariam apoio à mudança da lei de blasfêmia que Taseer combatia - a legislação prevê pena de morte para quem insultar o Islã.

A terceira questão é menos discutida, mas pode ser o mais assustadora. As armas nucleares do Paquistão, segundo Islamabad, estão protegidas dos fundamentalistas. Mas, no caso de Taseer, também havia garantias de que seus guarda-costas eram leais ao governo. Ele foi alvejado em um mercado público mais de 20 vezes sem que nenhum agente de segurança atirasse em seu assassino, Malik Mumtaz Qadri, de 26 anos, membro de uma força policial de elite.

Ninguém sabe dizer como Qadri passou no processo de seleção. Segundo uma autoridade americana disse, "essa é mais uma razão para se pensar melhor" no estrago que poderia fazer um guarda ou um cientista que resolva se apoderar de material nuclear.

Reação ao WikiLeaks. Esse é um assunto sobre o qual as autoridades americanas não se manifestam em público, apenas em privado, como mostram os despachos do WikiLeaks. "Nossa maior preocupação", escreveu Anne Patterson, então embaixadora americana em Islamabad, em 4 de fevereiro de 2009, "não é que um militante islâmico roube uma arma inteira, mas que alguém roube gradualmente material suficiente para fabricar uma arma nuclear."

Em uma reação irada ao telegrama de Patterson, autoridades paquistanesas disseram que essa era mais uma teoria da conspiração criada pelos americanos para justificar a intenção de se apoderar do arsenal atômico do país.

Até agora, apesar de um ou dois sustos, nada ocorreu. Pelo menos desde 2003, quando o Paquistão desmantelou o mercado negro de tecnologia de armas nucleares comandado por Abdul Qadeer Khan, patriarca do programa nuclear paquistanês. Mas Bruce Riedel, ex-agente da CIA e autor de Deadly Embrace: Pakistan, America and the Future of the Global Jihad ("Abraço mortal: Paquistão, América e o futuro da jihad global", em tradução livre), disse que o assassinato levanta novas dúvidas sobre as garantias dadas por Islamabad. "Vale a pena lembrar que, na lista paquistanesa de ameaças a seu arsenal nuclear, os EUA figuram no topo, e os terroristas e fundamentalistas aparecem muito abaixo", diz Riedel.

Para o Paquistão, o assassinato sugere que suas sublevações internas estão relacionadas a seus inúmeros problemas econômicos, que ameaçam exacerbar as diversas divisões do país. Durante anos, os paquistaneses foram pressionados pelos EUA e pelo FMI para realizarem uma série de reformas econômicas. A elite do país raramente paga impostos e há muita desigualdade e ressentimentos, que são exploradas pelos insurgentes.

Vontade política. Ano passado, durante visita ao Paquistão, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, declarou que era preciso uma reforma econômica séria. O primeiro-ministro Yusuf Raza Gilani decretou aumento no preço dos combustíveis, mas após um importante partido abandonar a coalizão governista e ameaçar desmanchar o governo, o premiê recuou. Outras reformas econômicas também parecem ter morrido no berço.

"A equipe econômica do governo sabe o que é preciso, mas não há vontade política", disse Shuja Nawaz, diretor do Centro de Estudos do Sul da Ásia do Atlantic Council. O FMI já disse ao Paquistão que bilhões em ajuda dependem das reformas prometidas. No entanto, entre serem escorraçados do poder ou condenados pelo mercado financeiro, quase sempre os políticos preferem a segunda opção. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É REPÓRTER DO ''NEW YORK TIMES"

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