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As revoluções

Com as cinzas de Fidel Castro, serão enterrados no cemitério de Santa Ifigênia, em Santiago de Cuba, os últimos vestígios do século 20

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

03 Dezembro 2016 | 05h00

Com as cinzas de Fidel Castro, serão enterrados no cemitério de Santa Ifigênia, em Santiago de Cuba, os últimos vestígios do século 20. Os restos mortais do “Comandante” retornarão ao local onde nasceu a revolução, em 1.º de janeiro de 1959, após percorrer, em direção oposta, os mesmos 950 quilômetros que ele cruzou com os castristas após a fuga do ditador Fulgencio Batista.

No percurso, Castro passou uma última noite ao lado do amigo Che Guevara, enterrado em Santa Clara. Amanhã, chegará ao seu destino: o mausoléu vizinho ao de José Martí, herói da independência, morto em 1895 defendendo a libertação de Cuba do domínio espanhol.

É um trajeto emblemático do fim não só de sua vida, mas de um ciclo histórico. Cuba se tornou independente da opressão colonialista no fim do século 19. O período seguinte foi marcado pelos movimentos nacionalistas burgueses e levantes de camponeses e operários que varreram a América Latina, muitos deles inspirados pelo triunfo de Fidel em Cuba. 

Naquele janeiro de 1959, Fidel falou em democracia e prometeu acabar com o domínio econômico dos EUA. O primeiro embargo americano, quando o presidente Eisenhower reduziu a cota de importação de açúcar em resposta à nacionalização das empresas estrangeiras, e a desastrosa invasão da Baía dos Porcos por um grupo paramilitar de exilados cubanos anticastristas com apoio dos EUA, em 1961, levaram Fidel a buscar proteção e apoio da União Soviética. Dois anos depois, ele permitiu que Moscou construísse uma base para lançamento de mísseis na ilha, que quase levou o mundo a um conflito nuclear e alçou Cuba ao centro da Guerra Fria. 

Nas décadas seguintes, Fidel desafiou 11 presidentes americanos, dezenas de embargos e centenas de tentativas de golpes e assassinatos, permaneceu no poder por mais tempo que qualquer outro líder, e sobreviveu até ao próprio obituário, pronto nas redações de todo o mundo desde que o líder começou a apresentar sinais de fraqueza, dez anos antes de morrer. 

No exterior, Fidel e a Revolução Cubana tiveram influência em praticamente todos os movimentos libertários da América Latina no século 20. O líder fomentou levantes e guerras na África e Ásia. Exportou armas para rebeldes argelinos, treinou guerrilheiros no Congo, sob comando de Guevara, apoiou o movimento pela libertação de Guiné-Bissau, enviou mais de 30 mil soldados à guerra pela independência em Angola, que causou a independência da Namíbia e enfraqueceu o apartheid na África do Sul – um dos primeiros destinos de Nelson Mandela, após ser libertado da prisão, foi a Cuba. Fidel também exportou médicos para países afetados pelo vírus ebola, como Guiné, Libéria e Serra Leoa.

É muito mais do que se poderia esperar de uma pequena ilha caribenha. Mesmo os que odeiam Fidel, e não são poucos, reconhecem sua influência. 

Internamente, o líder navegou entre importante progresso social e pobreza, igualdade e falta de liberdades civis, paternalismo e repressão. Ainda assim, mais de 3,5 milhões de cubanos, somente em Havana, assinaram livros colocados como parte do cerimonial de despedida ao líder, prometendo fidelidade à Revolução Cubana. 

Ele era o último representante de uma era em que muitos acreditaram em justiça social e alimentaram a esperança de que as revoluções socialistas poderiam mudar o mundo.

Fidel manteve-se, talvez de forma obsessiva, apegado a isso para além de seu tempo. Viveu para testemunhar a queda do Muro de Berlim e, já no século 21, a redenção da ilha ao capitalismo e à globalização (muito depois de outros regimes comunistas como China e Vietnã), além da reaproximação com os EUA pelas mãos do irmão, Raúl. “O modelo cubano não funciona mais nem para nós”, disse a um jornalista da revista The Atlantic, em 2010.

Ele também testemunhou a ascensão e a queda de governos democráticos de esquerda na América Latina, alguns dos quais se deslocaram para o centro, aceitaram a lógica de mercado e fizeram concessões e alianças inimagináveis para chegar ao poder, corrompendo-se da mesma forma que os regimes que combatiam, o que levou ao descrédito das instituições, dos políticos e ao consequente ressurgimento da direita conservadora populista, um fenômeno que acontece não só na região, mas no mundo. 

Nem mesmo Vladimir Putin comparecerá ao enterro de Fidel Castro amanhã. O ex-agente da KGB está ocupado demais com os negócios que pretende firmar com o novo aliado, o próximo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em tuítes publicados ao longo da semana, Trump demonstrou que pode reverter a reaproximação com Cuba se Raúl Castro não respeitar os direitos humanos. 

Trump não deixou claro se terá a mesma posição com relação a China, Emirados Árabes, Catar, Nigéria, Quênia, Paquistão e Egito, alguns dos principais parceiros de Washington, e entre os dez maiores violadores dos direitos humanos, segundo um último relatório da Anistia Internacional. E nós nos tornamos cínicos demais para as revoluções.

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