REUTERS/Ahmed Jadallah
REUTERS/Ahmed Jadallah

As revoluções de 2019 no Oriente Médio

Países enfrentaram manifestações que derrubaram governos e mexeram com as relações com os EUA

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2019 | 07h00

Faz nove anos desde a autoimolação de Muhammad Bouazizi, o vendedor de frutas da Tunísia que se desesperava com funcionários corruptos e com a falta de trabalho. Seu ato inspirou os levantes da Primavera Árabe que derrubaram os líderes de quatro países. 

Nenhum nome foi dado à onda de protestos que assolou a região em 2019. Ainda assim, mais líderes árabes caíram este ano que em 2011, quando milhões de manifestantes ecoaram em voz alta as queixas de Bouazizi.

Abdelaziz Bouteflika, o presidente da Argélia, foi o primeiro a sair neste ano, em abril, em meio a inquietações depois de 20 anos de regime ditatorial. Pouco mais de uma semana depois, Omar al-Bashir, há três décadas no cargo no Sudão, foi pressionado a sair por uma combinação de protestos de rua e a intervenção do Exército. 

Os manifestantes pensaram que os dois líderes haviam abusado de sua permanência no cargo, mas será que eles conseguiram uma real mudança? Os generais do Sudão assinaram um acordo de compartilhamento de poder com os líderes do movimento de protesto em agosto. Mas uma eleição na Argélia foi vista como um esforço para entrincheirar membros do antigo regime.

As manifestações continuam na Argélia e em outros lugares. No Iraque e no Líbano, elas depuseram os primeiros-ministros, mas muitos querem derrubar sistemas políticos inteiros. Os dois países dividem o poder entre suas religiões e seitas para manter a paz entre eles. Isso levou à corrupção e à má governança. 

No Iraque, as autoridades reagiram violentamente à agitação, matando centenas de pessoas. Enquanto isso, o Líbano afundou em uma crise econômica. O Irã, que exerce influência nos dois países, apoiou aqueles que resistem à mudança. Mas também foi abalado por protestos, em razão de um aumento no preço do combustível controlado pelo governo.

Acordo nuclear.

O presidente Hassan Rohani começou o ano dizendo que o Irã estava enfrentando sua pior situação econômica em quatro décadas. Ele culpou a campanha de “pressão máxima” de seu colega americano, Donald Trump. Em 2018, Trump rejeitou o acordo que restringia o programa nuclear do Irã em troca de alívio econômico. Desde então, ele aumentou as sanções contra o Irã. 

Apartado da economia global, o Irã revidou em 2019. Intensificou seu programa nuclear, contrariando o acordo e para desgosto de seus signatários europeus. Teerã também foi suspeito de ter atacado navios comerciais e instalações de petróleo sauditas, levando Trump a ordenar um ataque militar contra alvos iranianos.

Foi esse o tipo de ano para Trump no Oriente Médio. O presidente americano terminou 2018 saindo da Síria devastada pela guerra – ou, pelo menos, dizendo que o faria. Cerca de mil soldados americanos ainda estavam lá em outubro, quando Trump ordenou que alguns abandonassem suas posições no norte, onde mantinham sob controle os jihadistas do Estado Islâmico. 

O recuo deu à Turquia uma luz verde para expulsar os aliados curdos dos americanos de uma zona-tampão, prejudicando o semi-Estado que eles criaram na região. Também permitiu a Irã e Rússia, que resgataram o regime de Bashar Assad, exercerem mais influência na Síria. Assad agora parece pronto para retomar Idlib, a última província mantida por rebeldes árabes sunitas. Mas ele domina um país miserável e dividido.

O vizinho Israel também está dividido. Realizou duas eleições inconclusivas em 2019, e realizará mais uma em março. Em novembro, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu foi indiciado por acusações de suborno e fraude em três casos de corrupção. 

Netanyahu negou qualquer irregularidade, classificou as acusações de “golpe” e prometeu lutar na próxima eleição. Nas campanhas anteriores, ele se gabava de seu relacionamento com Trump, cujo governo reconheceu os assentamentos israelenses na Cisjordânia e sua soberania sobre as Colinas de Golan ocupadas. 

Enquanto isso, a parte econômica do acordo de paz “final” entre israelenses e palestinos de Trump não impressionou. A parte política poderá jamais ver a luz do dia.

A Tunísia perdeu seu primeiro presidente eleito democraticamente, Beji Caid Essebsi, em julho, aos 92 anos. Mas a eleição de Kais Saied, um desajeitado professor de direito, em outubro, trouxe um novo senso de esperança ao país, que luta contra a corrupção e a pobre economia, desde que abraçou a democracia. 

Depois de ouvir a notícia da vitória de Saied, milhares de tunisianos se reuniram na capital, muitos cantando os mesmos slogans da Primavera Árabe. A Tunísia é a única história de sucesso daquele período de agitação.

Enquanto manifestantes continuam pressionando por mudanças na região, a Tunísia continua sendo um farol de esperança. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO 

ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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