As sanções podem funcionar também em outros países?

Fatores específicos tornaram o Irã um caso especial; isso não significa que restrições similares possam ter sucesso em outras nações problema

HOWARD , LAFRANCHI, CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2013 | 02h06

O fato de o Irã chegar a um acordo para suspender parte do seu programa nuclear por seis meses põe um novo foco nas sanções econômicas, que podem se tornar instrumento para que nações rebeldes também interrompam atividades consideradas inaceitáveis. As sanções à economia do Irã tiveram papel fundamental para trazer o país para as negociações. Essa é a opinião de muitos analistas. No entanto, a situação do Irã pode ter sido sob medida para as sanções terem resultado. Uma grande classe média elegeu um presidente com um mandato para aliviar o sofrimento econômico e criar uma relação nova, menos combativa, entre o Irã e o mundo, incluindo seu arqui-inimigo, os EUA.

As demandas da sociedade iraniana pelo fim das sanções e pela mudança na ordem política do país - com a saída do exaltado presidente Mahmoud Ahmadinejad e a chegada de Hassan Rohani, líder mais moderado e internacionalista - foram fundamentais para convencer o Irã a negociar. "Não há dúvida de que as sanções tiveram impacto com relação ao programa nuclear iraniano e contribuíram para levar esse novo governo ao poder", afirma William Luers, diretor do Projeto Irã, no Carnegie Endowment for International Peace, em Washington. "No entanto, os iranianos querem mais do que dinheiro e acesso aos mercados, eles desejam uma mudança nas relações com os países da região", acrescentou.

Luers chama Rohani de "Deng Xiaoping do Irã". Mas, tão importante quanto a chegada de Rohani, foi o fato de o Irã estar se defrontando com potências internacionais, dispostas a dar prioridade à diplomacia e a recompensar Teerã em troca de ações específicas. "Sim, as sanções foram cruciais, mas a possibilidade de uma ação recíproca também foi importante", disse George Lopez, especialista em sanções econômicas internacionais. "A perspectiva de incentivos reais trouxe o Irã para a mesa de negociações e agora que um acordo de curto prazo foi alcançado, a próxima fase deve envolver recompensas inteligentes em troca de novas concessões."

As últimas sanções afetaram a economia iraniana com grande força e contribuíram para aumentar a pressão da sociedade no sentido de uma nova orientação com relação ao mundo exterior.

No entanto, George Lopez observa que os EUA foram cautelosos para não realizar "um mau trabalho de relações públicas", com a aplicação indiscriminada de sanções econômicas. As autoridades americanas, sem dúvida, ainda tinham lembrança do pesadelo enfrentado pelos EUA com notícias de sanções "infanticidas" impostas contra o Iraque de Saddam Hussein.

Outro argumento é que a aplicação de sanções em vários níveis não funcionariam em outros lugares. No caso da Coreia do Norte, a ausência de uma população de classe média acostumada a um padrão de vida confortável e a consumir produtos importados tornou as sanções econômicas irrealistas e ineficazes.

E a ditadura norte-coreana também não permite uma sociedade com direito de voto e engajada politicamente, capaz de expressar sua vontade nas urnas. "No caso da Coreia do Norte, você tinha de atingir as elites e, ao mesmo tempo, continuar a impedir a obtenção de materiais que alimentavam o seu programa. Era uma estratégia muito diferente."

Quanto ao Irã, o desafio agora, para as potências mundiais, será demonstrar para os iranianos e para o mundo que as sanções não constituem um fim, mas um meio. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM WASHINGTON

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