As sanções que não funcionam

Os embargos aplicados a países como Cuba e Coreia do Norte só afetam a inocente população

JIMMY, CARTER, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2014 | 02h03

Enquanto avaliamos as opções de reação à Coreia do Norte por acreditar que o país esteja por trás da invasão aos sistemas de computador da Sony Pictures, a proposta que recebe maior destaque é a adoção de sanções mais rigorosas. Em minhas visitas aos países afetados por sanções, vi como essa estratégia pode ser cruel com pessoas inocentes, que já sofrem sob o jugo de ditadores.

A imposição de embargos econômicos contra regimes aos quais nos opomos com frequência se revela ineficaz e pode ser contraproducente. Em Cuba, onde a mídia é controlada pelo governo, muitos estão convencidos que suas dificuldades econômicas são causadas pelos EUA. Visitei os lares dos irmãos Castro e de alguns dos principais nomes do partido e é óbvio que suas condições de vida não pioraram por causa do embargo. Muitas famílias cubanas são privadas de uma renda decente, certos alimentos, celulares, acesso à internet e liberdades essenciais, mas ao menos eles dispõem de bons sistemas de ensino e saúde. Além disso, os cubanos recebem cerca de US$ 2 bilhões anuais em remessas feitas por amigos e parentes nos EUA.

A situação é mais trágica na Coreia do Norte, onde nenhuma dessas vantagens existe. O embargo americano, imposto há 64 anos no início da Guerra da Coreia, foi observado com maior rigor, e foram feitos todos os esforços para limitar e prejudicar a economia norte-coreana. Durante minhas visitas a Pyongyang, debati com representantes do governo que enfatizaram o drama da população, que passa fome. O Programa Mundial de Alimentação da ONU (PAM) estima que sejam necessárias ao menos 600 gramas diárias de cereal para uma "ração de subsistência", e a distribuição de alimentos na Coreia do Norte teria chegado a 128 gramas. Em 1998, funcionários do Congresso americano que visitaram o país informaram que o número de mortos em decorrência da desnutrição fica entre 300 mil e 800 mil por ano.

Em 2001, o Centro Carter preparou a visita de agricultores norte-coreanos ao México para que aprendessem a aumentar a produção de suas colheitas, e a contribuição de grãos enviada pelos EUA aumentou para 695 mil toneladas no final dos anos 1990, durante um breve período de reconciliação entre americanos e norte-coreanos. Mas essa contribuição diminuiu muito durante a presidência de George W. Bush, sendo totalmente encerrada no mandato de Barack Obama em 2010.

Em 2011 voltei à Coreia do Norte acompanhado pelo ex-presidente da Finlândia Martti Ahtisaari, a ex-presidente da Irlanda Mary Robinson e a ex-primeira-ministra da Noruega Gro Brundtland. Em Pequim, funcionários regionais do PAM disseram não haver restrições ao monitoramento da distribuição e alimentos às famílias norte-coreanas. Eles nos acompanharam a Pyongyang e às regiões rurais onde pequenas rações de alimentos eram distribuídas às famílias. O governo garantiu que todas as entregas do tipo poderiam ser monitoradas pelos EUA e outros doadores.

Repassei essa informação a Washington, avaliando que um terço das crianças norte-coreanas apresentavam quadro de desnutrição grave. O governo americano nada fez.

Não há desculpa para a opressão de um regime ditatorial, mas o grau de tratamento duro depende ao menos em parte da insatisfação dos cidadãos. Uma população faminta tem maior probabilidade de buscar um alívio para sua condição, protestar e ser castigada ou executada.

Como ocorre em Cuba, a elite política norte-coreana nada sofre, e a propaganda onipresente das lideranças coloca a culpa da privação nos EUA. Quando consideramos necessário exercer pressão em governos por meios não militares, as sanções econômicas devem ter como foco as viagens, as contas bancárias e privilégios dos governantes, e não a destruição da economia da qual dependem as condições de vida dos oprimidos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É EX-PRESIDENTE DOS EUA

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