As seis 'bombas diplomáticas' que Trump precisa desarmar antes da eleição americana

As seis 'bombas diplomáticas' que Trump precisa desarmar antes da eleição americana

Presidente tem gigantesca coleção de pontos problemáticos em torno do mundo e ele precisa de algumas conquistas até novembro de 2020

David E. Sanger / The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2019 | 11h15

John Bolton saiu da sala de emergências e o presidente Donald Trump foi deixado com uma mesa coberta com uma gigantesca coleção de pontos problemáticos em torno do mundo. Para Trump, o relógio não para: ele precisa de algumas grandes vitórias entre hoje e a eleição de novembro de 2020. 

Mas também quer provar sua idiossincrática abordagem da política exterior, como se uma série de acordos, mais do que a filosofia de como funcionam o 'soft power' e o 'hard power' dos Estados Unidos, possa produzir resultados que a política externa de Wahington persegue há uma década ou mais. Veja o que está em jogo: 

Coreia do Norte

Meta de Trump: total, completa e verificável desnuclearização, incluindo o fim do programa norte-coreano de mísseis balísticos intercontinentais.

Se perguntarem a Trump sobre suas negociações com Kim Jon-un, o líder da Coreia do Norte, ele dirá que já está vencendo: foi o primeiro presidente americano a se encontrar com um líder da Coreia do Norte – por três vezes – e o primeiro a pisar, rapidamente, em território norte-coreano.

Ele conseguiu uma pausa, que durou os dois últimos anos, nos testes de armas nucleares e mísseis balísticos intercontinentais. Isso o levou a declarar no Twitter após o primeiro encontro com Kim, em Cingapura, que a Coreia do Norte “não é mais uma ameaça nuclear”.

O único problema é que a capacidade nuclear norte-coreana aumentou desde esse encontro, para alguns, significativamente. Estimativas do setor de inteligência indicam que o estoque de combustível da Coreia do Norte cresceu muito, assim como seu arsenal nuclear.

Testes com mísseis de curto alcance aumentaram a capacidade de Kim de atacar bases americanas na Coreia do Sul e no Japão com uma nova geração de armas criada para fugir da defesa antimíssil.

E o Norte não apresentou uma lista de suas armas, mísseis e instalações, o que deveria ser o primeiro passo.

Trump continua convencido de que Kim ficou impressionado com a perspectiva de novos hotéis nas (fortemente minadas) praias da costa leste norte-coreana. O país todo, diz Trump, tem uma grande vantagem: fácil acesso pela China, Rússia, Coreia do Sul e Japão. O problema é ele persuadir Kim a desistir das armas que, na visão do líder norte-coreano, são o que o mantém no poder.    

Perspectivas de vitória: próximas a nenhuma, a menos que Trump mude seus objetivos. É mais provável ele aceitar reduções parciais e chamar isso de vitória.

Irã

Meta: impedir o Irã de chegar perto de ter uma arma nuclear.

Para o governo Trump, o Irã é a maior ameaça existencial. O secretário de Estado, Mike Pompeo, vê o Irã como a fonte de todos os problemas no Oriente Médio.

Trump insiste que o único meio de se chegar a um bom acordo com o Irã é rasgar o acordo nuclear de 2015, que, segundo o presidente, não impede o Irã de fabricar combustível nuclear.

Bolton, que era um entusiasta da “pressão máxima” sobre o Irã, de fato teve mais sucesso do que a maioria dos especialistas esperava. As vendas de petróleo iraniano despencaram, a economia do país está encolhendo e parte de sua elite já começa a pensar que é inevitável negociar com um presidente que não suporta.

O mundo está na expectativa do início da Assembleia-Geral da ONU, este mês. Trump e Pompeo disseram que estão prontos a negociar sem condições previamente estabelecidas e podem se reunir com o presidente iraniano, Hassan Rohani.

Trump insiste que sua meta continua a mesma: “O Irã nunca terá uma arma nuclear”. Mas é improvável que Rohani aceite um encontro se as sanções iranianas não forem levantadas (diz ele).

Perspectivas de vitória: não são más. Os iranianos têm um longo histórico de mudar de ideia e negociar quando não há opções. Diferentemente da Coreia do Norte, o Irã não tem armas atômicas e, portanto, pode ceder mais facilmente.

Afeganistão

Meta: fazer um acordo de paz para poder retirar forças americanas.

Quando vai a Camp David, Trump vê fotos do ex-presidente Jimmy Carter – cuja diplomacia trouxe a paz, em 1978, entre Israel e Egito. Assessores dizem que isso inspirou Trump a convidar o Taleban – que deu acolhida à Al-Qaeda

para planejar os ataques de 11 de setembro de 2001 – ao retiro presidencial.

O argumento de Bolton de se tratava de uma ideia louca precipitou o rompimento entre os dois nesta semana.

Trump almeja uma “redução da violência” e o início de um diálogo sobre a divisão do poder entre o Taleban e o governo apoiado pelos EUA do presidente afegão, Ashraf Ghani.

Poucos acreditam que isso vá levar à paz. Mas pode ser o suficiente para dar a Trump a chance de reduzir significativamente as forças americanas no Afeganistão.

Perspectivas de vitória: mais para altas. Só quem deseja mais que Trump a saída das tropas americanas é o Taleban.

China

Meta: nebulosa. O presidente mistura com frequência comércio com preocupações com a segurança - com mais frequência ainda, em prejuízo das duas coisas.

Trump calculou mal quando desafiou o presidente da China, Xi Jinping. Ele achava que Xi cederia quando o aumento de tarifas começasse a funcionar. Até agora, Xi não cedeu. As oscilações do mercado refletem o medo de que as duas maiores economias do mundo possam fracassar simultaneamente.

Pompeo e muitos do establishment militar veem Xi como determinado a espalhar a influência de seu país pela África, América Latina e, cada vez mais, Europa – e usar a tecnologia chinesa para exercer o controle. O secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, está convencido de que Xi, no fim, vá fazer o melhor acordo econômico que puder.

Trump, sempre flexível, fica entre as duas posições, às vezes considerando o progresso tecnológico da China uma ameaça, outras vezes inclinado a achar que fornecer suprimentos americanos a esses esforços possa facilitar a negociação.

Perspectivas de vitória: pobres. Xi está jogando com vistas a um futuro mais distante, e Trump com vistas a novembro de 2020.

Oriente Médio

Meta: fazer a região aceitar o plano Kushner de paz.

O presidente e seu genro, Jared Kushner, passaram dois anos estudando um plano de paz para o Oriente Médio – o “acordo do século”, segundo Trump. Ao ser revelada a primeira parte do plano, viu-se que se tratava de fazer Estados árabes ricos, entre outros, investirem bilhões de dólares nos territórios palestinos, além de Egito, Jordânia e Líbano.

Mas o lado político do plano só será revelado após a eleição – se for. Enquanto isso, nesta semana, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, prometeu em sua campanha eleitoral anexar um terço da Cisjordânia ocupada – reduzindo o futuro Estado palestino a um enclave circundado por Israel.

Perspectivas de vitória: na UTI. Não há evidências de que a ideia de Kushner obtenha sucesso onde outros falharam.

Rússia

Meta: nada clara. Cercado de conselheiros que defendem enquadrar a Rússia, Trump passa por cima das ofensas e defende a reintegração do país.

Isolado entre os conselheiros, Trump acredita que a chave é a reintegração da Rússia, recebendo de volta o país no G-7 e perdoando (ou ignorando) a anexação da Crimeia por Moscou. E nunca mencionando os esforços russos de influenciar na eleição americana de 2016.

Enquanto isso, o Pentágono, o FBI, o Departamento de Segurança Interna e a Agência de Segurança Nacional dizem

estar criando constantemente planos para conter a influência maligna da Rússia na eleição de 2020.

Com a saída de Bolton, Trump pode bem tentar negociar uma ampliação do tratado New START, último remanescente dos

acordos de controle de armas entre os EUA e a Rússia.

Quando se trata de levantar sanções, porém, Trump está emparedado dentro do próprio partido, cujos líderes dizem

não ter intenções de reverter décadas de uma contenção radical da Rússia.  

Perspectivas de vitória: Trump aqui não está jogando pôquer, está jogando paciência. Sua única vitória possível

seria uma ampliação do tratado de controle de armas. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ  

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