As sequelas reais de um sniper francês

Atirador de elite da Legião Estrangeira relata as sequelas psicológicas e a solidão impostas pela tarefa constante de matar à distância

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL / LAON, FRANÇA, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2015 | 02h04

Um ano havia se passado desde o momento em que Ulrich caminhara em frente a um escritório de recrutamento do Exército em uma pequena cidade do nordeste da França. O soldado, então com 20 anos, fora enviado ao lado de colegas de sua seção de elite do 2º Regimento Estrangeiro de Paraquedistas em missão "em algum lugar da África".

Depois de saltar de paraquedas sobre o teatro de operações, tomou posição vestindo um Ghillie, uma veste camuflada usada por atiradores de elite. Durante pouco mais de duas horas, monitorou um grupo de inimigos e esperou o momento adequado, recebendo as instruções de seu observador, soldado que o apoiava na missão. Ao fim do dia, quando o sol se punha, disparou pela primeira vez contra um alvo humano.

"Atirei na zona vital, coração e pulmões, como fui treinado. Vi o corpo do meu alvo ser arrebentado em dois na altura do tronco e vomitei imediatamente", afirma. "Eu sabia o resultado que meu tiro teria, mas vê-lo morrer daquela forma foi horrível. A imagem do primeiro em que atiramos fica gravada, e marca a cada dia, até o fim dos dias."

Ulrich, nome fictício escolhido por ele próprio, é um ex-soldado da Legião Estrangeira da França que, ao longo dos anos 2000, exerceu uma função específica: a de atirador de longa distância. A pedido do Estado, ele aceitou relatar sua experiência de vida nos cinco anos em que foi um franco-atirador europeu em operações realizadas em diferentes continentes. Ulrich não revela detalhes de missões, nem os países em que esteve, por força de contrato sigilo assinado com as Forças Armadas, mas na década passada seu regimento e sua seção atuaram em países como o Afeganistão.

Sequelas. Quase 10 anos depois de ter deixado a Legião Estrangeira, contra a vontade de seus superiores, Ulrich remói todos os dias as sequelas psicológicas do período. Sobre sua vida pregressa, mantém segredo até da namorada com quem vai viver junto.

Segundo ele, na vida real um "sniper" é, forçosamente, um homem amargo, perseguido pela própria memória e sob influência permanente do estresse pós-traumático, uma realidade distante da imagem de herói que cercou a vida de Chris Kyle, personagem real biografado no filme Sniper Americano, de Clint Eastwood, que concorre hoje ao Oscar de melhor filme.

Ulrich se tornou membro de uma unidade de elite quase por acaso. Voluntário do Exército, alistou-se em 1998, aos 19 anos, sem razão específica. "Passei em frente ao escritório de alistamento, entrei sem motivo e saí com um dossiê completo para preencher", recorda-se. "Três ou quatro semanas depois, realizei testes psicotécnicos e outros. Não passei e, normalmente, não deveria ter seguido em frente, mas houve um arranjo qualquer e fiz os testes físicos."

Convidado a integrar uma unidade de logística, recusou. "Eu queria alguma posição que me pusesse em contato com o inimigo. Quatro meses depois de passar no escritório e me alistar, fui para o sul da França me juntar aos treinamentos de uma unidade de formação de paraquedistas da Legião Estrangeira." Dos cerca de 60 soldados que disputavam as vagas, quatro ou cinco foram selecionados para passar a treinar com a unidade, marcada pela reputação de ser incapaz de recuar mesmo diante de baixas consideráveis.

"Nos filmes os atiradores sempre têm muito tempo. Quando estamos no campo, temos no máximo 1,5 segundo para calcular o tiro. Logo se transforma em um automatismo."

Danos. De acordo com Ulrich, entretanto, nenhum treinamento técnico, por mais que ofereça preparo mental, é capaz de amortecer o impacto psicológico da função. "Depois que você se torna um atirador, você não tem mais amigos. Uma paranoia se instala, tudo e todos ao seu redor podem ser vistos como seus inimigos", conta.

As sequelas, diz, se manifestam o tempo todo. "Quando consigo dormir mais profundamente, tenho pesadelos constantes. Quando ouço um grito ou uma porta bater, salto como se tivesse de reagir. Quando entro em uma casa, sento voltado para a porta ou para as janelas e penso no que pode acontecer. Não lamento nada, porque fiz tudo aquilo pelo meu país, mas tenho lembranças que me invadem todo o tempo e das quais não posso me livrar", diz Ulrich. "Tive colegas que resolveram esses problemas enforcando-se ou metendo uma bala na cabeça. Outros passaram por hospitais psiquiátricos e alguns dos que não passaram se tornaram perigosos."

De seus ex-colegas de Exército, Ulrich quer distância. Não que tenha más recordações do convívio, mas as lembranças das operações o atormentam. "O mais simples é viver sozinho ou camuflar essa parte de minha vida. É assim que prefiro", explica, recusando-se a revelar o número de inimigos que abateu. "Eu sabia que ser um atirador poderia atingir o meu corpo, se impregnar na minha carne", pondera. "Eu só não sabia que o estrago seria tão grande."

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