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As tarifas de Trump

Prioridade do presidente americano não é resolver os problemas, mas manter o mundo atônito e ocupado em responder a seus movimentos histéricos e incoerentes

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2019 | 06h00

Donald Trump anunciou tarifas de importação sobre todos os produtos mexicanos, como retaliação contra o aumento da chegada de imigrantes da América Central na fronteira México-EUA. O anúncio foi feito na quinta-feira, quando o México iniciava a ratificação do acordo USMCA, que substituiu o Nafta e garante tarifa zero entre os dois países mais o Canadá.

As tarifas começam em 5%, a partir do dia 10, e vão subir mês a mês até alcançar 25%, em outubro, se o México não tomar providências que satisfaçam o presidente americano.

Com a guerra de tarifas travada por Trump contra a China, o México se tornou o maior parceiro comercial dos EUA. As ações futuras nas bolsas americanas e asiáticas caíram. Os produtos montados no México para o mercado americano contêm muitos componentes da China e de outros países da Ásia.

O problema é real. Segundo funcionários americanos, houve aumento significativo no número de centro-americanos pedindo refúgio na fronteira México-EUA, a mais movimentada do mundo. São 4,5 mil por dia, e 80 mil estão detidos do lado americano por tentar entrar ilegalmente.

Faz uma década que o fluxo de mexicanos diminui, mas cresce o de salvadorenhos, guatemaltecos, hondurenhos e nicaraguenses. A atitude do México não é de “cooperação passiva”, como afirmou Trump. O governo mexicano tem oferecido dinheiro para os imigrantes voltarem espontaneamente a seus países. A polícia tem montado barreiras para conter as “caravanas” que cruzam o país de sul a norte. Milhares foram detidos nos últimos meses.

O México jamais se recusou, seja nos governos liberais anteriores, seja na atual gestão nacional-esquerdista de Andrés Manuel López Obrador, a cooperar com os EUA para enfrentar o problema. A prioridade de Trump não é resolvê-lo, mas manter o mundo atônito e ocupado em responder a seus movimentos histéricos e incoerentes.

O fato de alguém assim governar um dos países mais avançados do mundo só é possível em razão da dispersão intelectual a que estamos entregues. Frequentemente não conseguimos nos concentrar em uma informação tempo suficiente para compreendê-la. Nesse ambiente, a capacidade de estimular, ou de “engajar”, segundo o jargão do marketing digital, é muito mais valiosa do que a coerência, que se torna uma desvantagem, porque limita a diversidade e fluidez dos estímulos.

Não tem necessariamente de ser assim. As mesmas plataformas digitais que espalham mentiras também podem servir na verificação de fatos e na reposição da verdade, como têm feito o Estado e outros veículos. Uma juíza britânica aceitou, na semana passada, abrir processo contra o ex-chanceler Boris Johnson por ter mentido na campanha do Brexit, que ele liderou. Os custos da ação foram pagos por cidadãos por meio de crowdfunding (vaquinha digital) que arrecadou US$ 250 mil (R$ 980 mil).

Johnson repetia todos os dias que o Reino Unido pagava 350 milhões de libras (R$ 1,7 bilhão) à União Europeia, o que é falso. O enquadramento é por má conduta no serviço público, cuja pena pode chegar à prisão perpétua. Johnson será obrigado a comparecer a uma audiência dentro de quatro a seis meses, quando provavelmente será premiê: graças a sua capacidade de iludir os britânicos acerca da saída da UE, ele é o favorito na disputa pela liderança do Partido Conservador e, consequentemente, à chefia do governo.

Estou encerrando uma viagem de 50 dias por regiões rurais de seis países africanos, nas quais, em geral, não há eletricidade, muito menos internet, e tive contato intenso com algo que anda esquecido: o valor da confiança, da palavra empenhada. Precisamos ser capazes de recuperar isso, sem termos de abrir mão da eletricidade e da internet.

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