As três revoluções dos egípcios

A primeira teve como objetivo retirar o país da inépcia; a segunda, livrá-lo dos incompetentes; e a terceira, fugir de um beco sem saída

É COLUNISTA, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2013 | 02h04

Se estiverem procurando alguma perspectiva otimista no que acontece atualmente no Egito, sugeriria que subissem até 10 mil metros de altitude e olhassem para baixo. Talvez dessa distância os acontecimentos no Egito nos últimos dois anos e meio farão quase sentido.

Na realidade, houve três revoluções no Egito desde o início de 2011. Se as somarmos, talvez possamos discernir alguma mensagem que esclareça o que os egípcios procuram.

A primeira revolução foi aquela em que o povo e os militares egípcios derrubaram o presidente Hosni Mubarak e instalaram o ex-ministro da Defesa, o idoso marechal Mohamed Tantawi, na função de chefe de Estado de fato.

Tantawi e seus colegas revelaram-se totalmente incompetentes no governo e foram substituídos, por meio de uma eleição revolucionária, pelo partido da Irmandade Muçulmana, liderado pelo presidente Mohamed Morsi.

Morsi tratou rapidamente de consolidar o poder decapitando os militares e instalando simpatizantes da Irmandade em posições importantes. Seu estilo autocrático, não inclusivo, e sua liderança falha na área econômica assustaram o centro egípcio, que, no mês passado, se associou a uma nova geração de oficiais militares para uma terceira revolução a fim de derrubar Morsi e a Irmandade.

Em palavras mais simples: a primeira revolução do Egito teve como objetivo retirar o país da inépcia; a segunda, de livrá-lo dos incompetentes; e a terceira, fugir do beco sem saída em que o país se encontrava.

A primeira revolução ocorreu porque um grande número de jovens egípcios, na maior parte não islamistas, cansou-se da inépcia sufocante da era Mubarak - uma inépcia tão grande que esses jovens tinham a percepção de viver em um sistema viciado, onde não tinham nenhuma chance de concretizar plenamente seu potencial sob um líder desprovido de visão.

Depois de cerca de 30 anos de governo, e aproximadamente US$ 30 bilhões de ajuda americana, 30% dos egípcios ainda não sabiam ler e escrever.

Entretanto, os generais que tomaram o lugar de Mubarak eram incompetentes e incapazes de governar - a ponto de, nas eleições de 2012, muitos liberais egípcios preferirem votar em Morsi, da Irmandade Muçulmana, em lugar de um ex-general de Mubarak.

Mas Morsi revelou-se mais interessado em consolidar o poder da Irmandade sobre o governo do que em governar, e acabou levando o Egito a um beco sem saída. Os egípcios então foram às ruas no dia 30 de junho e praticamente pediram aos militares que derrubassem Morsi.

Se somarmos tudo isto, encontraremos a mensagem da maioria egípcia. Não mais inépcia, queremos um governo que pretenda tornar o Egito novamente a nação na vanguarda do mundo árabe. Não mais incompetentes, queremos um governo que seja dirigido por pessoas capazes de restaurar a ordem e criar empregos. Não mais becos sem saída, queremos um governo que seja inclusivo e respeite o fato de que 65% dos egípcios não são islamistas e, embora muitos sejam muçulmanos praticantes, eles não querem viver num país que se assemelhe a uma teocracia.

Seria difícil exagerar até que ponto a economia, a lei e a ordem se deterioraram no governo Morsi. Eram tantos os egípcios que se sentiam inseguros que começou uma intensa procura por cães policiais! Tantos guias de turismo ficaram desempregados que os turistas foram alertados para evitar visitas às pirâmides porque seriam cercados por multidões de condutores de camelos e de vendedores de cartões postais desesperados.

Uma pesquisa de opinião realizada pelo Centro Egípcio de Pesquisas de Opinião concluiu que 71% dos egípcios "não apoiam os protestos pró-Morsi".

De fato, teria sido muito melhor se Morsi tivesse sido destituído mediante uma votação. Mas o que está feito, está feito. Nós precisamos explorar o lado bom dessa situação. O mais certo agora seria o presidente Barack Obama não ignorar apenas os pedidos para pôr fim à ajuda econômica ao Egito - com a alegação de que a última revolução resultou num golpe militar. Nós deveríamos procurar fazer com que todo mundo ajudasse o novo governo egípcio a seguir o caminho certo.

Não surpreende que as pessoas temam que os militares do Egito permaneçam no poder indefinidamente. É um perigo, mas não estou tão preocupado com isso. O poder agora está com os cidadãos egípcios. E a maioria deles exigiu - por três vezes, desde 2011 - que o governo siga o caminho certo.

O que me preocupa é outra coisa: que os egípcios definam o caminho certo e façam com que a maioria o siga. Trata-se de um desafio totalmente diferente, e não tenho certeza de que o Egito chegue a esse nível de consenso. Mas o atual governo oferece todas as esperanças para isso acontecer. Ele tem pessoas capazes em postos importantes, como os ministérios das Finanças e dos Assuntos Exteriores. Está preocupado com a elaboração de uma Constituição justa e uma reforma econômica sustentável. Sua tarefa será muito mais fácil se a Irmandade Muçulmana for reintegrada na política, e se acabar com sua guerra com os militares. Mas a Irmandade precisa também aceitar que agiu de maneira muito errada e precisa reconquistar a confiança do povo.

Não é esse o momento para os EUA punirem os egípcios ou exigirem eleições urgentes. A tarefa dos americanos é ajudar o novo governo a tomar o máximo possível de decisões acertadas na área econômica, pressionando-o ao mesmo tempo a se tornar mais inclusivo e favorável ao multipartidarismo. Se isso acontecer, o Egito poderá contar com os elementos adequados para a realização de novas eleições democráticas. Se não acontecer, nenhuma eleição poderá salvá-lo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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