As últimas horas de Mubarak no poder

Círculo próximo ao presidente o convenceu a não renunciar na quinta e Exército interferiu

AP,

12 de fevereiro de 2011 | 22h41

CAIRO - O ex-ditador egípcio Hosni Mubarak deveria ter deixado o poder na quinta-feira. O Exército egípcio esperava isto. O novo chefe do seu Partido Nacional Democrático (PND) pediu a ele pessoalmente que fizesse isto. Mas, apesar de mais de duas semanas de protestos maciços de manifestantes indispostos a aceitar concessões menores, o presidente ainda não havia compreendido a situação.

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Os principais aliados de Mubarak e seus familiares - principalmente seu filho Gamal, tido como seu potencial sucessor - lhe disseram que ele poderia contornar a revolta. Assim, o discurso de renúncia que todo o Egito esperava se tornou um teimoso - e no limite humilhante - esforço para manter o poder. Apenas irritou os manifestantes. Na sexta-feira, os militares agiram decisivamente.  A agência AP obteve um retrato do que aconteceu nas últimas horas antes do 'irremovível líder', que governou o país por 30 anos, cair:

Fora da realidade

 

Fontes ouvidas pela AP descreveram Mubarak como incapaz, ou indisposto, a entender que nada que não fosse sua renúncia imediata salvaria o país do caos gerado pelos protestos iniciados em 25 de janeiro. Oficiais do governo disseram que faltou a Mubarak uma rede de apoio político que pudesse lhe dar conselhos precisos sobre o que acontecia no país. " Ele não queria enxergar além daquilo que Gamal lhe contava. Estava isolado politicamente", disse uma fonte. "Cada medida tomada por ele foi insuficiente e tardia".

O Exército, enquanto isso, se tornava cada vez mais impaciente com a incapacidade de Mubarak e do recém-nomeado vice-presidente, Omar Suleiman, em acabar com os protestos. A insurreição saiu de controle na quinta e na sexta-feira, com manifestações, greves e até confrontos que tomaram praticamente todo o país.

Ainda segundo as fontes ouvidas pela AP - que incluem membros do governo, jornalistas da imprensa estatal, generais da reserva, dirigentes do PND e analistas, houve uma discordância entre ministros sobre o grau da ameaça que os manifestantes representavam. Aliados próximos ao presidente, principalmente Gamal Mubarak, tentaram deliberadamente esconder do ditador a completa extensão do que acontecia nas ruas.

Pressão militar

 

Os militares mostraram preocupação com as manifestações logo no começo do levante. Segundo as fontes, foi o Exército quem convenceu Mubarak a nomear Suleiman como vice - cargo que não existia em seu governo - e torná-lo o responsável pelo diálogo com a oposição para superar o impasse.

 

Suleiman fracassou. Na terça-feira, ele fazia ameaças de que um golpe substituiria as negociações se não houvesse progressos. Líderes dos protestos prometeram não conversar até que Mubarak caísse, mesmo depois dele garantir que não disputaria a reeleição em setembro, prometer reformas para reduzir a pobreza e pôr fim às leis de emergência, além de tornar o regime mais democrático. Na quinta-feira, quase todo mundo esperava que Mubarak caísse, inclusive o Exército. 

Hossam Badrawi, um dos principais nomes do PND, se reuniu com Mubarak na quinta e disse a repórteres que ele esperava que o líder egípcio 'atendesse as demandas do povo' - ou seja, que renunciasse - naquele mesmo dia. Após Mubarak frustrá-lo, Badrawi, que havia se tornado secretário-geral do partido há cinco dias, entregou o cargo em protesto.

 

Enquanto isso, a alta cúpula do Exército se reunia sem seu comandante-em-chefe e distribuía um comunicado reconhecendo os direitos legítimos dos manifestantes. A declaração foi batizada de 'comunicado número um', linguagem que no mundo árabe sugere que um golpe estava em andamento.

 

O discurso

 

 As fontes dizem que Mubarak, de fato, deveria ter renunciado na quinta à noite. Mas, ao invés disso, fez uma última tentativa de continuar no cargo após ser incentivado por aliados próximos, especialmente sua família, há muito alvo de rumores de corrupção, abuso de poder e de possuir uma fortuna bilionária.

Gamal, o filho do presidente, reescreveu o discurso várias vezes antes dele ser gravado. O pronunciamento foi ao ar às 23h, no horário local, muito tempo depois do que foi prometido pela TV estatal.  O vídeo do discurso foi claramente feito às pressas. Tinha cortes mal feitos e erros de continuidade, com Mubarak arrumando a gravata e não olhando para a câmera. O ministro da Informação, Anas al-Fiqqi, que estava no estúdio, foi um dos primeiros a desmentir a renúncia, vazando a informação para a imprensa.

No pronunciamento, Mubarak declarou que estava transferindo a maioria de seus poderes para Suleiman, mas rejeitou renunciar. Prometeu implementar reformas e perseguir quem usou violência contra os manifestantes. Disse estar magoado pelos pedidos para que ele saísse, e, em sua defesa, relembrou seus anos no serviço público. Ele não sairia até que seu mandato terminasse, em setembro.

 

O presidente esperava que delegar poderes a Suleiman colocasse fim aos protestos e permitisse que permanecesse no cargo como uma figura simbólica, o que lhe permitiria uma saída digna. O discurso expôs o que muitos egípcios suspeitavam há anos: Mubarak havia perdido o contato com o povo.

"Ele tentou manejar a crise com as normas e estruturas existentes. Foi obviamente tarde demais. As ofertas feitas por ele foram claramente insuficientes.

 

A sexta-feira

 

 As fontes ouvidas pela AP discordam se o discurso de quinta foi feito com o consentimento do Exército. No entanto, mesmo se a paciência dos militares não houvesse acabado após o discurso, esgotou-se na manhã seguinte.

Os militares permitiram que os manifestantes se reunissem em frente ao palácio presidencial, após Mubarak ter deixado o Cairo rumo ao Balneário de Sharm el-Sheikh, na península do Sinai. Os soldados também liberaram o cerco ao prédio da TV estatal e a prédios ministeriais e ao parlamento. O primeiro-ministro, Ahmed Shafiq, teve de despachar do ministério da Aviação Civil.

No começo da tarde, oito milhões de pessoas saíram às ruas do Cairo, Alexandria e outras cidades. A multidão nas portas do palácio aumentava. Apenas alguns metros e quatro tanques a separava dos portões.

Suleiman, conselheiro de Mubarak há anos e ex-chefe do serviço secreto anunciou a saída do ditador. Em um comunicado de duas frases na TV estatal, que durou 49 segundos, a história do Egito mudou para sempre.

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