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As urnas da Argentina

A derrota dos aliados da presidente argentina, Cristina Kirchner, nas eleições da semana passada, mexeu com o país. Uns viram na escolha dos eleitores uma guinada importante na nação superpolitizada. Outros, vislumbraram uma trégua entre a Casa Rosada e os empresários, que há anos vivem à ponta de faca. E houve quem enxergasse mais. O tombo da dinastia Kirchner seria o início do fim de toda uma geração de caudilhos latino-americanos.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2013 | 02h04

Melhor seria procurar tofu na parrilha. Ninguém dúvida, a eleição foi um golpe nas ambições da líder argentina. Adoentada e afastada da campanha, ela acompanhou em silêncio a sangria de seus preferidos. A começar pela Província de Buenos Aires, domicílio de 38% dos eleitores, onde o governista Martín Insaurralde foi humilhado pelo oposicionista Sergio Massa, ex-chefe de gabinete da própria presidente.

Os ungidos de Cristina também perderam terreno em Córdoba, Chubut, Santa Fé, Mendoza e Santa Cruz. Hoje, nem os mais fiéis cristinistas apostam em um terceiro mandato para a presidente, que depende da aprovação de dois terços do Parlamento.

Na política argentina, no entanto, um terremoto não necessariamente leva à revolução. Mesmo que acabe a era Kirchner, as eleições deixaram intocada a pedra fundamental do país, o peronismo. O novo astro da política, Massa pode ser rival moral da presidente, com perfil moderado e até simpático à pauta do empresariado, mas é da mesma flâmula de seu desafeto: o Partido Justicialista, fundado por Juan Domingo Perón, cuja sombra ainda encobre a tempestuosa política azul-celeste.

Eis uma das grandes diferenças entre a Argentina e os países bolivarianos. Sim, todos são tocados por populistas carismáticos e igualmente autoritários. Governam - uns mais exaltados que outros - com uma mão no microfone e outra enfiada no erário.

Nos países andinos, porém, a causa se confunde com o caudilho. Evo Morales é a cara e o cacique do socialismo "plurinacional" boliviano, assim como Rafael Correa é sócio-fundador, chefe e animador da "revolução cidadã" do Equador.

Por mais que Hugo Chávez tenha negado que o seu socialismo do século 21 dependa de uma só pessoa, a agonia de seu sucessor, Nicolás Maduro, o desmente a cada dia. Maduro até tenta vestir o manto do mentor, mas lhe falta ombro.

Já na Argentina, o sistema sobreviveu ao líder. Perón foi, ao mesmo tempo, um caudilho personalista e um exímio operador político, sempre de olho no futuro. Com apoio de sindicalistas, do empresariado amigo e de uma sempre comprável bancada legislativa, institucionalizou seu poder.

No entanto, criou um poder com molejo. E sucessores. Alguns peronistas são nacionalistas ou intervencionistas, outros chegados à livre iniciativa. "São como a Coca-Cola", disse um líder peronista ao correspondente do Estado, Ariel Palacios. "Ora light, ora tradicional. Mas são todos peronistas."

Nenhum deles é Juan Domingo, claro. Mas todos fazem juras ao fiador. Assim, o peronismo renova-se, criando novos caciques e tendências, sem perder a hegemonia. Cristina, embora derrotada, não está acabada. Seus aliados na grande gincana peronista continuam com maioria simples, no Senado e na Câmara. Ela continua controlando o Legislativo e, graças a reformas anteriores, dispõe de poderes de decreto.

Quem imagina que a derrota eleitoral possa levá-la à moderação, pode ficar sonhando. Apenas 48 horas depois de a Suprema Corte dar ao governo ganho de causa na ruidosa briga com o Grupo Clarín, um enviado da Casa Rosada entregou pessoalmente a ordem judicial ao jornal. Assim, Cristina deflagrou o desmonte do mais poderoso grupo de mídia do país. É a revanche, no estilo K.

É COLUNISTA DO 'ESTADO',

CORRESPONDENTE DO SITE

THE DAILY BEAST E EDITA O

SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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