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As várias enfermidades da senhora União Europeia

Ao completar 60 anos, está em péssima forma e precisa de tratamentos para o Brexit, o populismo, a zona do euro, entre outros problemas

Timothy Garton Ash*, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2017 | 05h00

A Europa chega hoje a sua festa de aniversário de 60 anos, em Roma, em péssima forma. Um check-up médico recente revelou que uma mão será amputada (gangrena “brexitosa”), um pé está terrivelmente inflamado (putinisma ukrainica) uma doença de pele irrompeu em muitas partes do corpo, agravada por uma reação alérgica perigosa (xenofobia populista), uma úlcera consumiu seu estômago (eurozonite). Ela padece também de uma logorreia e perda de memória. E o médico teme que o coração em breve poderá sofrer uma parada cardíaca (displasia arritmogênica Le Pen).

Quando a Europa completou 30 anos, numa fase de muita esperança após 1989, ucranianos e moldávios, turcos e egípcios se voltavam para olhar essa mulher irresistivelmente atraente quando ela entrava na sala. Hoje, nem prestam atenção. E, para arrematar, seu antigo parceiro teve um ataque de loucura (egomania narcissistica trumpica).

A imagem da Europa como uma mulher talvez seja tão antiga quanto o mundo. Os leitores devem se lembrar que a Angelina Jolie da antiga mitologia grega foi sequestrada por um agressor sexual chamado Zeus que se disfarçava de touro. Mas a União Europeia, a “Europa” atual, se assemelha mais à maravilhosa imagem projetada pelo cartógrafo do século 16 Sebastian Münster da Europa Regina, a rainha Europa, seu corpo formado por muitas regiões e países europeus. A Europa de Münster é uma dama imponente, com coroa, globo e cetro, mas também com muitas partes distintas. Pois a Europa como nação única é produto do sonho federalista e do pesadelo eurocético, não a realidade.

Receitas. E aqui começa o problema com as receitas propostas pelos médicos de Bruxelas. É o caso do recente “livro branco” do eminente gastroenterologista de Luxemburgo, presidente da Comissão Europeia, que traz o interessante subtítulo “Reflexões e Cenários para os 27 da UE em 2025”. Ele apresenta cinco cenários com títulos sucintos, como: “Continuar como previsto”, “Focar de novo no mercado único”, “Aqueles que querem mais fazem mais”, “Fazer menos e com mais eficiência” e “Fazer muito mais juntos”.

É fantasiosa a ideia de que um amplo debate popular na Europa culminará no que Juncker modestamente chama de “meu discurso sobre o Estado da União em setembro de 2017”, e depois “em um processo que será iniciado em tempo para as eleições no Parlamento Europeu, em junho de 2019”. Como se todo o continente esperasse ansiosamente pelo discurso de Juncker, do mesmo modo que os americanos aguardam o discurso do seu presidente sobre o “Estado da União”.

Um cronograma mais realista seria esse: seguindo o bom exemplo dos eleitores holandeses que rechaçaram o desafio populista do Partido pela Liberdade de Geert Wilders, os eleitores franceses se mobilizariam no segundo turno da eleição presidencial, em maio, para evitar uma parada cardíaca de toda a UE provocada por Marine Le Pen. O problema da dívida grega não será resolvido até depois da eleição geral na Alemanha, em 24 de setembro. A crise bancária e/ou política na Itália é evitada. Se conseguirmos resolver toda a situação – e trata-se de um enorme “se” –, talvez então uma coalizão de líderes bem dispostos, trabalhando com os três “presidentes da UE e suas instituições (Conselho, Comissão e Parlamento)” consiga traçar uma rota para a recuperação do bloco a partir de 2018.

Labirinto. A verdade é que a Europa necessita de vários tratamentos, cada um com base num cuidadoso diagnóstico do problema particular, seja o Brexit, o populismo, a zona do euro, a interferência russa na Ucrânia, a dura situação dos refugiados, a latente ditadura na Turquia ou a convivência com Donald Trump. Alguns tratamentos requerem uma ação no plano da UE e em outros agrupamentos.

A questão da fronteira externa da área de Schengen, por exemplo, ou da Otan quando se tratar de defender os Países Bálticos contra a ameaça da Rússia. Com relação aos mecanismos de funcionamento da UE, a melhor maneira de avançar pode ser uma combinação dos terceiro e quarto cenários sugeridos por Juncker: “aqueles que querem mais fazem mais” e “fazer menos com mais eficiência”. Mas a luta será vencer ou perder no âmbito da política nacional e regional dos seus muitos integrantes, com suas línguas e estilos diferentes.

Cabe aos políticos, intelectuais líderes empresariais, educadores, da Alemanha, França e Itália, defenderem a continuidade da União Europeia, e sua reforma, nos seus países, em seus próprios idiomas – e isso vale para valões e flamengos, poloneses, espanhóis, catalães, irlandeses e, claro, ingleses. Nos casos em que as políticas europeias estiverem causando danos, é preciso deixar isso claro e mudá-las. Mas os políticos nacionais têm de parar de culpar Bruxelas por tudo de mau que ocorre e reivindicar todo o crédito para si próprios.

Eles têm de ouvir com muita atenção as legiões de eleitores insatisfeitos, elaborar políticas para tranquilizar esse eleitorado e comunicá-las em uma linguagem direta e atrativa que chegue até aqueles hoje seduzidos pelo populismo. Como qualquer comunidade política, a União Europeia só sobreviverá se uma parcela suficiente da sua população (e povos) quiser que ela sobreviva.

Aos 60 anos de idade, a Europa está em péssima forma, mas essa jovem senhora ainda tem vida. Ter vontade e autoconfiança para melhorar reduz as dificuldades à metade. E manter o senso de humor sempre ajuda. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É professor de Estudos Europeus na Universidade Oxford e vencedro do Prêmio Internacional Charlemagne deste ano

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