As várias faces de Muamar Kadafi

Com o regime líbio sitiado, reaparece a imagem do monstro maligno, antes tolerado pelo Ocidente em nome de petrodólares

Dirk Vandewalle, The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 00h00

Duas imagens ilustram de modo bastante adequado o início e o encerramento das quatro décadas de governo do líder líbio, coronel Muamar Kadafi. A primeira é a foto tirada poucos dias depois do golpe de 1.º de setembro de 1969, que o levou ao poder: ela mostra um belo e esbelto jovem revolucionário, em uniforme militar, ajoelhado na areia do deserto para orar. A outra foi tirada há três dias: Kadafi com uma expressão de desafio, envolto em seu manto de beduíno, defendendo de maneira incoerente - enquanto o levante desencadeado pela prisão de um advogado pertencente ao movimento pelos direitos humanos em Benghazi se estendia no país - sua pretensa revolução, e prometendo lutar até a morte.

Entre as duas fotos transcorreram 42 anos de um regime de chumbo, e milhares de fotografias que mostram a transformação de um jovem agitador no promotor do terrorismo internacional; de um jovem governante ambicioso, que prometia restaurar a grandeza do nacionalismo árabe depois do assassinato do seu herói, o presidente Gamal Abdel Nasser do Egito, num personagem proscrito pela comunidade internacional; de um filósofo em potencial para o bufão cuja demagogia foi igualmente ridicularizada por amigos e inimigos.

Por fim, após anos de sanções impostas pelos EUA e por todos os outros países, mais velho, mas sempre combativo, Kadafi foi aparentemente reabilitado pelo Ocidente.

Depois da revolução de 1969, os líderes ocidentais acreditaram de início que o novo regime líbio seguiria a mesma linha do reino, com uma política favorável ao Ocidente. Entretanto, logo ficou evidente que Kadafi não era um líder árabe comum, que obedeceria às convenções do comportamento ou do decoro internacional.

Assim que chegou ao poder, sua mensagem não deixou dúvidas: ele definiu a si mesmo e à Líbia como o baluarte contra o que considerava a política predatória do Ocidente. A brutalidade do período colonial italiano - que durou de 1911 a 1943 e levou à morte talvez a metade da população da província oriental da Líbia - se tornaria para ele uma persistente obsessão. Os italianos haviam destruído o embrião das estruturas burocráticas e administrativas criadas antes da invasão, de maneira que a Líbia tinha poucos elementos para se tornar um Estado moderno. E a monarquia - liderada pelo rei Idris I, nada propenso a governar a Líbia unificada - mantivera durante quase 20 anos a situação deixada pelos italianos ao sair do país.

O que não estava claro no início da revolução de 1969 era até que ponto o caminho adotado por Kadafi se tornaria tortuoso. Movido pelos petrodólares, ele foi descendo para um mundo cada vez mais autossuficiente, voltado para si e para o endeusamento próprio, um sistema fechado, alimentado e reforçado pelo servilismo que sempre cerca os ditadores e não tolera a oposição.

No início dos anos 70, por meio da estatização das companhias petrolíferas do país, Kadafi conquistou uma dose saudável de legitimidade perante o povo, mas também uma crescente desconfiança por parte do Ocidente. Em meados dos anos 70, ele demonstrou sua crescente falta de perspectiva com a publicação do manifesto Livro Verde, uma reduzida coleção de balbucios incoerentes que apresentou como o guia ideológico da "revolução" da Líbia que, no seu entender, nunca acabaria.

Logo o conteúdo do Livro Verde se tornou uma fonte de slogans nacionais. "A casa pertence aos que moram nela", dizia um deles, obrigando os proprietários de várias habitações a abrir mão dos seus imóveis (ou a arranjar rapidamente casamentos para mantê-los na família". Outro reiterava que "a democracia é o aborto dos direitos de um indivíduo". Kadafi passou a ser apontado como o líder do guia, o oráculo de uma revolução não muito estável.

Reflexões. Entretanto, as reflexões filosóficas de Kadafi e suas ideias grandiosas para uma nova sociedade foram se chocando cada vez mais com o que se tornara o lado visivelmente mais negro do seu regime. Os líbios conscientizaram-se de que viviam um pesadelo "orwelliano" no qual até os protestos mais fracos podiam levar a desaparecimentos, a prisões prolongadas sem qualquer forma de reparação e à tortura. Famílias inteiras sofriam pelas supostas transgressões de um dos seus membros.

O próprio exílio não representava uma fuga do terror. Em uma campanha para a eliminação do que Kadafi definia como "cães vadios", armou esquadrões da morte que perseguiam os dissidentes até mesmo no exterior. Quando, em 1984, manifestantes líbios realizaram um protesto diante de sua embaixada em Londres, um policial que tentava manter a calma entre os manifestantes foi morto por uma bala disparada do interior da embaixada. O que levou o governo britânico a cortar as relações diplomáticas com o regime.

A tendência de Kadafi de zombar das convenções internacionais, e o envolvimento do governo, muito bem documentado, em incidentes terroristas provocou um prolongado confronto com o Ocidente e fez com que o líder líbio fosse marginalizado pelo Ocidente. O presidente Ronald Reagan o definiu com a famosa expressão, "o cachorro louco do Oriente Médio", e o conceito de Kadafi como pessoa irracional, determinado a destruir os interesses ocidentais a todo custo e por todos os métodos, tornou-se sua imagem consagrada em todo o mundo. O atentado contra o avião da Pan Am sobre Lockerbie, na Escócia, em 1988, no qual perderam a vida 270 pessoas, foi apenas a confirmação final de sua loucura e iniquidade.

Depois de Lockerbie, a Líbia mergulhou no isolamento e Kadafi gritava vitupérios em discursos cada vez mais apocalípticos. Ele atribuía a conspirações americanas ou sionistas - ou a uma quinta coluna na Líbia que trabalharia no interesse destas - qualquer pequeno revés sofrido por seu país.

Armado de enormes ambições, e de muito dinheiro, passou a atacar o Ocidente - cometendo novos atos de terrorismo, como o atentado na discoteca La Belle, na Alemanha, em 1986, no qual morreram dois soldados americanos, e tentou criar e comprar armas biológicas e tecnologia para armas nucleares. Também financiou deploráveis causas e movimentos de libertação em todo o mundo, desde pequenos grupos de oposição na África subsaariana até o Exército Republicano Irlandês (IRA). Ao mesmo tempo, era afetado pelas sanções econômicas e diplomáticas em todo o mundo.

Em dezembro de 2003, a Líbia finalmente concordou em abrir mão de todos seus estoques de armas químicas, biológicas e nucleares. A promessa coroou um longo processo de negociações de bastidores com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, e foi uma das condições que Kadafi cumpriu para acabar com as sanções. Isso assinalou o início de sua reabilitação na sociedade internacional.

O regime agora tentava apresentar Muamar Kadafi ao mundo como ele sempre se considerara: uma figura global de grande projeção, um pensador de grande visão, cujas ideias sobre democracia mereciam uma profunda contemplação intelectual. Entre estas ideias estava o conceito de "Isratina", um Estado unitário no qual coexistiriam Palestina e Israel.

Relevância. O governo líbio pagou uma empresa de consultoria internacional para criar um fórum destinado a reunir na Líbia renomados especialistas e personalidades para debater com o "líder da revolução" sobre a natureza da democracia. O comparecimento de importantes intelectuais e figuras públicas do Ocidente - dispostas a satisfazer os caprichos e as fantasias de um ditador por um punhado de petrodólares - alimentou em Kadafi a convicção de que o Livro Verde ainda era importante, e sua revolução obsoleta e sua própria estatura de líder mundial tinham enorme relevância.

O homem que outrora personificara o terrorismo tornara-se, assim, um precioso aliado na luta contra o terrorismo. Poderíamos conviver com suas pequenas manias e ocasionais discursos delirantes em troca de sua cooperação. Assim, ele forneceu informações sobre grupos islâmicos em seu país e, em pelo menos uma oportunidade, aceitou um preso terrorista para interrogatório. As companhias petrolíferas americanas, bem como outras empresas dos EUA, voltaram à Líbia. Kadafi fechara o círculo, ou pelo menos era o que muitos acreditavam.

Agora que o regime líbio - assim como os da Tunísia, do Egito, Iêmen e Bahrein - está sendo sitiado por um levante popular, voltou a aparecer a imagem de Kadafi como um monstro maligno que fará todo o possível para sobreviver. Centenas de civis foram mortos pelas forças de segurança e por mercenários contratados, enquanto as forças favoráveis a Kadafi tiveram de abandonar Benghazi e a maior parte da província oriental da Cirenaica.

Na segunda-feira, quando o líder foi à televisão empunhando seu Livro Verde, seu discurso virulento soou como incoerente, mas familiar. Os adversários, ele disse, não passam de "cães e insetos nojentos", que ele esmagaria e mataria.

Foram-se as frases floreadas sobre a teoria democrática. Estava de volta a realidade da supressão brutal. Entretanto, os terríveis acontecimentos da semana passada nos fazem lembrar de uma frase do Livro Verde, escrita com o perfeito sangue frio do coronel Muamar Kadafi: "Esta é a autêntica democracia, mas na realidade os fortes sempre dominam". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PROFESSOR DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA NA UNIVERSIDADE DE DARTMOUTH

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