As várias lições deixadas pelo 11 de Setembro

Uma delas é que Bush errou ao declarar guerra global ao terror

Joseph Nye, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

PROJECT SYNDICATE

O ataque da Al-Qaeda aos Estados Unidos dez anos atrás causou um choque profundo na opinião pública tanto americana quanto internacional. Que lições podemos tirar uma década depois? Quem voar ou tentar visitar um prédio de escritórios em Washington recebe um lembrete de como a segurança americana foi modificada pelo 11 de Setembro.

Mas, embora a preocupação com o terrorismo tenha aumentado e as restrições à imigração sejam mais rígidas, a histeria dos primeiros dias após o 11 de Setembro abrandou. Novas agências como o Departamento de Segurança Nacional, a Diretoria de Inteligência Nacional e um Centro de Contraterrorismo modernizado não transformaram o governo americano e, para a maioria dos americanos, as liberdades pessoais foram pouco afetadas. Não ocorreram novos ataques em larga escala dentro dos Estados Unidos e a vida cotidiana recuperou a normalidade.

Mas essa aparente volta da normalidade não deve nos enganar sobre a importância do 11 de Setembro no longo prazo. Como argumentei em meu livro The Future of Power, (O futuro do poder, em tradução literal) uma das maiores mudanças nesta era de informação global é o fortalecimento de atores não estatais. A Al-Qaeda matou mais americanos no 11 de Setembro do que o bombardeio do Japão contra Pearl Harbor em 1941. A isso se poderia chamar de uma "privatização da guerra".

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos estiveram mais vulneráveis, em termos tecnológicos, a um ataque nuclear da União Soviética, mas a "destruição mútua assegurada" impediu o pior ao manter a vulnerabilidade mais ou menos simétrica. Os soviéticos controlavam uma grande força, mas não poderiam se sobrepor aos Estados Unidos com seu arsenal.

No entanto, duas assimetrias favoreceram a Al-Qaeda em setembro de 2001. Primeiro, houve uma assimetria de informação. Os terroristas possuíam boas informações sobre seus alvos, enquanto os EUA antes do 11 de Setembro possuíam informações precárias sobre a identidade e localização das redes terroristas. Alguns relatórios do governo haviam antecipado em que medida atores não estatais poderiam ferir grandes Estados, mas suas conclusões não foram incorporadas a planos oficiais.

Coerência. Segundo, houve uma assimetria de atenção. Os muitos interesses e objetivos de um ator maior geralmente diluem sua atenção a um ator menor que, ao contrário, pode focar mais facilmente sua atenção e sua vontade. Havia muita informação sobre a Al-Qaeda no sistema de inteligência americano, mas os EUA foram incapazes de processar coerentemente a informação que suas diversas agências haviam coletado.

Mas assimetrias de informação e atenção não conferem uma vantagem permanente aos que recorrem à violência informal. Evidentemente, não existe uma segurança perfeita e, historicamente, ondas de terrorismo muitas vezes demoraram uma geração para recuar. Mesmo assim, a eliminação da liderança da Al-Qaeda, o fortalecimento da inteligência americana, os controles fronteiriços mais rígidos, e a maior cooperação entre o FBI (a polícia federal americana) e a CIA (o serviço secreto americano) claramente tornaram os Estados Unidos (e aliados) mais seguros.

Mas há lições maiores que o 11/9 nos ensina sobre o papel de narrativa e poder brando numa era da informação. Tradicionalmente, os analistas supunham que a vitória ia para o lado com melhor exército ou maior força; numa era da informação, o resultado é influenciado também por quem tem a melhor história. Narrativas competidoras contam e o terrorismo tem a ver com drama político e narrativo.

O ator menor não pode competir com o maior em termos de poderio militar, mas pode usar a violência para estabelecer a agenda mundial e construir narrativas que afetam o poder brando de seus alvos. Osama bin Laden foi um grande adepto da narrativa. Ele não foi capaz de causar tantos danos aos Estados Unidos quanto esperava, mas conseguiu dominar a agenda mundial por uma década e a inépcia da reação inicial americana significou que ele pode impor custos maiores do que o necessário aos Estados Unidos.

O presidente George W. Bush cometeu um erro tático ao declarar uma "guerra global ao terrorismo". Ele teria feito melhor se enquadrasse a resposta como uma réplica à Al-Qaeda, que havia declarado guerra aos EUA. A guerra global ao terror foi erroneamente interpretada como uma justificativa para uma ampla variedade de ações, incluindo uma mal orientada e cara guerra no Iraque, que prejudicou a imagem dos EUA. Além disso, muitos muçulmanos entenderam errado o termo como um ataque ao Islã, o que não era intenção dos EUA, mas servia às intenções de Bin Laden para manchar as percepções sobre os Estados Unidos em países muçulmanos decisivos.

Na medida em que o trilhão ou mais de dólares de custos sem fim da guerra contribuíram para o déficit orçamentário que hoje tolhe os EUA, Bin Laden conseguiu prejudicar o poder duro americano. E o verdadeiro custo do 11/9 pode ser o de oportunidade: durante a maior parte da primeira década deste século, enquanto a economia mundial deslocava gradualmente seu centro de gravidade para a Ásia, os EUA estiveram ocupados numa equivocada guerra de escolha no Oriente Médio.

Uma lição-chave do 11/9 é que o poder militar duro é fundamental para enfrentar o terrorismo de gente da laia de Bin Laden, mas que o poder brando de ideias e legitimidade é fundamental para vencer os corações e mentes das populações muçulmanas majoritárias às quais a Al-Qaeda gostaria de recrutar. Uma "estratégia de poder inteligente" não ignora as ferramentas do poder brando.

Mas, ao menos para os EUA, a lição mais importante do 11/9 talvez seja que a política externa americana deveria seguir o conselho do presidente Dwight Eisenhower há meio século: não se envolver em guerras terrestres de ocupação, e concentrar-se em manter a força da economia americana. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR NA UNIVERSIDADE HARVARD, AUTOR DE "THE FUTURE OF POWER" E EX-SECRETÁRIO ADJUNTO AMERICANO DE DEFESA

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