Às vésperas da eleição, atentado suicida do Taleban mata 8 em Cabul

Grupo tenta intimidar eleitores e Afeganistão vive um dos dias mais violentos desde a invasão do país, em 2003

Lourival Sant?Anna, CABUL, O Estadao de S.Paulo

19 de agosto de 2009 | 00h00

O Taleban provou ontem mais uma vez sua capacidade de driblar o extraordinário aparato de segurança montado em Cabul para assegurar a realização das eleições de amanhã. Um atentado suicida com carro-bomba reivindicado pelo grupo matou 8 pessoas, incluindo um militar britânico e dois funcionários da missão da ONU. Além da ofensiva na capital, ataques em outras regiões do país deixaram 28 mortos.A forte explosão, ocorrida por volta das 13 horas locais (5h30, em Brasília), feriu 53 civis afegãos e 2 militares britânicos. Foi o segundo carro-bomba em três dias em Cabul. No sábado, um atentado semelhante matou 7 civis e feriu 91 pessoas, incluindo quatro militares das forças internacionais e quatro policiais afegãos. O autor do atentado entrou com o carro - um Corolla cinza - no meio de um comboio militar britânico de três veículos, numa estrada que leva para a Base Aérea de Bagram. Ele se chocou com o carro do meio e detonou os explosivos. Vários veículos pegaram fogo.Ontem foi um dos dias mais violentos desde a invasão do Afeganistão, em 2003, por causa da escalada do conflito entre as forças internacionais e afegãs, de um lado, e o Taleban, de outro, que procura intimidar os eleitores a não comparecerem amanhã para votar para presidente e para os conselhos das 34 províncias. Granadas de morteiros foram lançadas contra Cabul, uma caindo perto do palácio presidencial e outra numa delegacia de polícia, sem deixar feridos. A explosão de uma bomba numa estrada na Província de Helmand, no sul, matou um casal, cinco filhos e quatro filhas, que viajavam numa van. Na Província de Uruzgan, também no sul, um suicida detonou seus explosivos nos portões de uma base do Exército afegão, matando três soldados e dois civis. Dois militares americanos morreram e três ficaram feridos na explosão de uma bomba numa estrada no leste do país. Finalmente, oito taleban e dois policiais morreram durante combate no norte do Afeganistão.As forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que combatem os taleban no sul, confirmaram que vão suspender todas as operações para a realização das eleições. O chefe do serviço secreto afegão, Amrullah Saleh, disse no domingo que havia negociações com líderes tribais e comandantes locais do Taleban uma trégua amanhã. "Parece não haver coesão de comando entre os taleban locais", disse ele. "Pode ser que alguns acordos sejam obedecidos." O Taleban, porém, não parece disposto a uma trégua. Em entrevista ao Estado, publicada ontem, Qari Yousef Ahmadi, porta-voz do movimento, desmentiu as negociações."Os Emirados Islâmicos deixam claro para o povo que o resultado desta eleição nunca será aceitável", afirma um comunicado do Taleban enviado ontem por e-mail aos jornalistas. "A comunidade internacional e nossos concidadãos não devem ver esse processo como florescente nem como afegão."Cabul está sob alerta vermelho desde o atentado de sábado, em frente do quartel-general da Otan e do Exército afegão, a menos de 100 metros da embaixada americana - a área mais protegida da capital. Por toda parte há policiais e militares, com os dedos nos gatilhos de seus fuzis-metralhadoras. Barricadas de blocos de concreto e sacos de areia protegem todos os edifícios.O ministro da Defesa, Abdul Rahim Wardak, disse no domingo que terroristas suicidas são inimigos muito difíceis de enfrentar, que não podia garantir que não haveria mais atentados. Para evitá-los por completo, segundo ele, seria necessário revistar todos os carros da cidade. "Não vamos ceder à pressão do inimigo para mudar o estilo de vida dos cidadãos nem violar seus direitos", disse. Mas ontem um bloqueio da polícia revistava aleatoriamente carros que passavam numa avenida a cerca de 3 quilômetros do local do atentado. As ruas de Cabul tinham ontem bem menos movimento do que de costume. Muitas pessoas estão saindo só por motivos essenciais. Funcionários estrangeiros de agências da ONU, de organizações não-governamentais e de empresas deixaram o país, para só voltar depois das eleições. Hoje é feriado do dia da independência. Amanhã, dia das eleições, o tráfego de veículos estará proibido. O Ministério das Relações Exteriores emitiu comunicado recomendando aos meios de comunicação afegãos e estrangeiros que não noticiem incidentes violentos entre 6 horas e 20 horas de amanhã, "para assegurar ampla participação do povo afegão nas eleições". As ameaças do Taleban e sua visível disposição de cumpri-las mudaram, sim, a rotina dos afegãos.

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