Às vésperas de eleição, problemas que levaram à queda de Mubarak persistem

Após a revolução. Quinze meses depois da derrubada do ditador egípcio, população ainda busca alguém que enfrente o alto índice de desemprego e tome medidas contra a crise econômica causada por sumiço dos turistas e diminuição dos investimentos externos

ROBERTO SIMON, ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2012 | 03h06

Passados 15 meses desde a queda do ditador Hosni Mubarak, o Egito começa a escolher esta semana seu próximo presidente, na primeira eleição presidencial livre da história do mundo árabe. Nas ruas do Cairo, porém, o clima é uma mistura de otimismo e cautela em relação ao futuro. As causas econômicas e sociais da revolta de janeiro de 2011 não apenas permanecem, como estão rapidamente se agravando.

Treze candidatos disputarão, na quarta e quinta-feira, o primeiro turno da eleição. Pelo menos quatro têm chances de passar para o segundo turno: Amr Moussa, ex-chanceler de Mubarak; Abdel Moneim Aboul Fotouh, dissidente da Irmandade Muçulmana; Ahmed Shafiq, último premiê da ditadura; e Mohamed Morsi, indicado pela Irmandade Muçulmana (mais informações nesta página).

Nenhum deles deve levar mais de 50% dos votos esta semana, estendendo a disputa para o segundo turno, marcado para meados de junho. No dia 1.º de julho, a junta militar que governa o Cairo desde a queda de Mubarak deve deixar de existir.

Violência. No breve espaço de tempo entre o fim da ditadura e o primeiro turno das eleições, a política egípcia deu várias voltas. Foram três governos de transição, uma consulta constitucional, eleições legislativas, o início do julgamento de Mubarak, além da formação - seguida de dissolução - de uma Assembleia Constituinte.

A violência continuou mesmo após a queda do regime de Mubarak, matando outras dezenas ou centenas de pessoas. Cerca de 12 mil civis foram julgados em tribunais militares em meio à transição.

Laico ou islâmico, ex-opositor ou veterano da ditadura, o primeiro presidente eleito do Egito terá de enfrentar uma economia à beira do abismo, em um país onde 40% da população vive abaixo da linha da pobreza, com mais de um terço de analfabetos.

Desde a queda de Mubarak, a economia estagnou e dois terços das reservas do Banco Central evaporaram, juntamente com os investimentos externos e os turistas. Em um caso único no mundo, foi o Exército do Egito, que controla grande parte da economia, que socorreu o BC com um empréstimo de US$ 1 bilhão - segundo alguns, para melhorar sua imagem enquanto reprimia manifestantes na Praça Tahrir.

"Não estamos vivendo apenas uma mudança de regime, mas uma mudança de modelo econômico", afirmou ao Estado Ahmed el-Sayed el-Naggar, economista-chefe do centro de pesquisa Al-Ahram, do Cairo. "Com Mubarak, a corrupção vinha de cima, institucionalizada, para alimentar uma elite predatória."

Por causa da estrutura etária de sua sociedade, o Egito tem de criar anualmente 175 mil empregos só para dar conta do crescimento da população economicamente ativa. Oficialmente, o desemprego subiu 25% desde o fim da ditadura e está na marca de 13%. Naggar, porém, afirma que a cifra real é de pelo menos 27%.

Inquietações e ressentimentos entre a comunidade internacional e os egípcios dificultam uma saída. O FMI prometeu um pacote de US$3,2 bilhões pouco após a queda de Mubarak, mas os técnicos do fundo indicam que só liberarão o dinheiro se a Irmandade - que tem mais de 40% das cadeiras do Parlamento - se comprometer publicamente com o acordo.

A boa relação que o FMI tinha com Mubarak ainda incomoda vários grupos que estão assumindo o poder no Cairo. "O fundo nunca questionou as cifras oficiais e foi totalmente conivente com a ditadura em nome de uma suposta estabilidade", diz Naggar.

Vazio. No cotidiano dos egípcios, o efeito mais evidente é a queda no turismo, principal fonte de renda do país ao lado da exploração do Canal de Suez e da venda de gás. Turistas costumam visitar o Egito de setembro a abril e a revolta começou no mês janeiro, no meio da temporada. Mesmo após 15 meses, com os preços mais em conta, o fluxo de estrangeiros é baixo.

"Hoje ganho um oitavo do que ganhava antes da queda de Mubarak", diz Akram Essam, guia formado pela Faculdade de Turismo do Cairo. "Faço descontos de 50%, mas americanos e europeus acham que o Egito, a Líbia e a Síria são uma coisa só nessa tal Primavera Árabe."

A expectativa é a de que a indústria do turismo renda vários votos para os candidatos ligados ao antigo regime, que construíram a campanha em torno da promessa do retorno da autoridade e do fim da "anarquia".

Um dos eleitores que seguirá essa lógica é o sapateiro Fawzi Chalabi, de 70 anos, um dos mais antigos vendedores do Khan el-Khalili, o mercado local. Chalabi diz que votará no ex-chanceler ou no ex-premiê de Mubarak em busca do retorno "da ordem e do turismo" ao Egito. "Sem a primeira, não haverá o segundo", afirma, entre tragadas de narguilé.

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