Maxim Shemetov/Reuters
Maxim Shemetov/Reuters

Às vésperas de reunião entre Putin e Biden, Rússia bane grupo de líder da oposição

Justiça russa qualificou como extremistas as organizações do opositor Alexei Navalni, uma medida que permite sua liquidação e aumentar a repressão a seus partidários

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2021 | 18h02
Atualizado 09 de junho de 2021 | 21h38

MOSCOU - A Justiça russa qualificou nesta quarta-feira, 9, como extremistas as organizações de Alexei Navalni, uma medida que permite sua liquidação e aumentar a repressão aos partidários do opositor detido antes das eleições de setembro. A decisão foi anunciada dias antes de um encontro entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o americano, Joe Biden, previsto para a próxima semana. 

Na prática, decisão esmaga a resistência mais organizada ao Kremlin e a forçará à clandestinidade. "Fica demonstrado que estas organizações não só difundiam voluntariamente informações que incitavam ao ódio e à hostilidade contra os representantes do poder, mas que além disso cometiam crimes e delitos extremistas", declarou aos jornalistas um representante da Promotoria, Elexei Jafiarov.

A sentença tem como objetivo sobretudo a Fundação de Luta Contra a Corrupção (FBK), organização que apresentou pesquisas importantes sobre o estilo de vida e a corrupção na elite russa. Além disso, tem como alvo os escritórios regionais de Navalni, que convocam manifestações e organizam campanhas eleitorais.

Os Estados Unidos e o Reino Unido denunciaram a decisão judicial. "Instamos a Rússia a parar de abusar das designações de 'extremismo' para atingir organizações não violentas, a acabar com a repressão ao sr. Navalni e seus apoiadores e a cumprir suas obrigações internacionais de respeitar e garantir os direitos humanos e as liberdades fundamentais", declarou o porta-voz do Departamento de Estado americano, Ned Price.

A decisão, após uma audiência a portas fechadas que durou um dia inteiro, efetivamente equipara o grupo político de Navalni e sua fundação ao Estado Islâmico, à rede Al Qaeda e ao Taleban aos olhos das autoridades russas.

Navalni e seus aliados há muito foram impedidos de concorrer a cargos públicos. Mas forçar o movimento a se desfazer marca um capítulo novo e mais agressivo na repressão política da Rússia. Os 40 escritórios regionais das organizações foram desativados no fim de abril, em antecipação à decisão. 

Os membros da equipe de Navalni podem pegar 6 anos de prisão se continuarem trabalhando. Muitos já fugiram do país. Doar para as organizações será punível com até 10 anos de prisão. Retuitar vídeos anteriores do grupo de Navalni, expondo a corrupção de políticos e burocratas russos, também pode significar prisão.

Mas Ivan Zhdanov, diretor da Fundação Anticorrupção, disse em uma entrevista ao canal de notícias independente russo TV Rain que a equipe de Navalni não interromperá suas atividades e as autoridades russas não deveriam esperar por isso. A evidência usada no caso é um segredo de estado.

Uma mensagem publicada na noite desta quarta-feira na conta de Navalni no Instagram convoca seus apoiadores a não recuarem e pede que eles se unam à sua equipe para as eleições legislativas do outono local. “Iremos nos organizar, evoluir, iremos nos adaptar. Mas não iremos recuar em nossos objetivos e ideias. É o nosso país e não temos outro”, publicou Navalni após o veredito.

Na última audiência, em 17 de maio, os advogados de defesa das organizações de Navalni receberam seis volumes adicionais de material da promotoria. O tribunal se recusou a permitir que Navalni fosse chamado como testemunha, escreveu no Twitter a equipe de defesa, um grupo de direitos legais chamado Team 29. A equipe jurídica disse que apelaria da decisão desta quarta-feira.

Navalni está cumprindo pena de mais de dois anos de prisão por acusações que ele e observadores internacionais disseram ter motivação política. Ele foi envenenado no ano passado com um agente nervoso letal, um golpe em sua vida que Navalni disse ter sido executado por agentes de segurança do estado agindo sob as ordens do presidente Putin.

Suas organizações eram uma ameaça ao Kremlin por suas investigações populares publicadas no YouTube, que expunham a corrupção do grupo mais próximo de Putin. A equipe de Navalni também coordenou um esforço para enfraquecer o partido governante Rússia Unida, de Putin, com um sistema chamado Votação Inteligente, recomendando que os apoiadores votassem em candidatos de outras afiliações políticas./W. Post e AFP

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