Meyer Liebowtiz/The New York Times
Meyer Liebowtiz/The New York Times

As viagens de Fidel Castro a Nova York durante os anos em que esteve no poder

Visitas foram marcadas por longos e polêmicos discursos na ONU, encontro com Malcolm X e muitas críticas, tanto dele quanto dos americanos

O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2016 | 10h46

Ele pode ter sido considerado um inimigo do Estado, mas Fidel Castro - líder da Revolução Cubana morto na sexta-feira aos 90 anos - conseguiu se divertir nas poucas vezes em que esteve nos EUA. O cubano, que sofreu inúmeras tentativas de assassinato pela CIA, visitou Nova York cinco vezes durante as cinco décadas em que ficou no poder, segundo informações do jornal britânico The Guardian.

A relação de Fidel com o território americano sempre foi um tanto conturbada. A lenda diz que ele quase se mudou para os EUA como um jogador de beisebol depois de atrair atenção de alguns olheiros da liga principal, apesar de haver poucas evidências que comprovem essa história. Ao invés disso, em 1948, após se casar com a estudante Mirta Díaz-Balart, chegou ao país para uma lua de mel que durou três meses.

Os dois passaram 10 dias em Miami, mas a maior parte do tempo foi gasta na cidade de Nova York, onde Fidel comprou um veículo americano de luxo - um Lincoln Continental - com janelas elétricas. Depois, eles voltaram para Flórida e, em seguida, retornaram a Cuba de barco.

Fidel voltou a Miami um ano depois para se esconder de inimigos políticos. Retornou novamente em 1955 para traçar uma revolução. “Um jovem revolucionário cubano está em Miami fazendo planos para derrubar o governo de Fulgencio Batista”, reportou o jornal Miami Herald na época. O ex-presidente visitou cidades com grandes concentrações de cubanos, incluindo Tampa e Key West, com o objetivo de conseguir apoio e fundos.

Quando voltou a Nova York em 1959, a Revolução tinha apenas quatro meses de existência e os EUA estavam entre os primeiros países a reconhecer o novo governo. Fidel ficou hospedado alguns dias no hotel Statler Hilton, no centro de Manhattan, onde hoje é o Hotel Pennsylvania.

O site WNYC News destacou: “A primeira visita de Fidel como chefe de Estado foi relativamente pouco polêmica. Grande parte da imprensa divulgou informações como ‘Fidel come um cachorro-quente’, ‘Fidel observa um tigre em zoológico no Bronx’, ‘Fidel conhece duas crianças em Nova York usando barbas falsas’”.

Mas o tom das reportagens foi muito diferente no ano seguinte, quando Fidel foi à Assembleia-Geral das Nações Unidas em Nova York. Ele havia declarado os EUA como “o inimigo do mundo”.

Fidel se hospedou no hotel Shelburne, e tabloides locais informaram que ele tinha alguns hábitos “desagradáveis”: teria chegado a matar e cozinhar galinhas em seu quarto, além de apagar charutos em carpetes caros. Boatos dizem que a equipe do cubano considerou dormir em redes no Central Park e ameaçou marchar até a ONU e acampar no local.

Mas Malcolm X e outros líderes dos direitos civis conseguiram organizar para que os cubanos ficassem no Hotel Theresa, no bairro de Harlem. Malcolm escreveu em sua autobiografia que Fidel “fez uma estratégia psicológica com o Departamento de Estado dos EUA quando este o confinou em Manhattan e nem sonhou que ele estava no Harlem, o que causou uma boa impressão na comunidade negra”.

Fidel estabeleceu o Hotel Theresa como sua sede e acenou da sacada de seu quarto para milhares de apoiadores segurando uma bandeira de Cuba. Barrado do almoço com líderes latino-americanos do então presidente americano Dwight Eisenhower, o líder organizou um encontro alternativo na cafeteria do hotel para uma dúzia de funcionários negros, chamando-os de “as pessoas pobres e humildes do Harlem”.

Na madrugada do dia 19 de setembro de 1960, Fidel se encontrou com Malcolm X, que mais tarde alegou que o cubano era “o único homem branco que ele já gostou”.

Veja abaixo: O adeus de Fidel

Na ONU, Fidel fez um discurso de 4 horas e 26 minutos no qual expressou solidariedade à população negra oprimida na África.

Quando deixou o país, 11 dias depois, autoridades americanas confiscaram seu avião por dívidas pendentes. O então primeiro-ministro soviético, Nikita Kruchev, forneceu uma aeronave para que o colega pudesse voltar para casa.

Os EUA romperam as relações diplomáticas com Cuba em 1961, mas Fidel voltou a Nova York em 1979 para outra conferência da ONU e os americanos foram obrigados a conceder um visto a ele. Durante a visita, qualificou Washington de “imperialista” e exigiu US$ 300 bilhões para as nações mais pobres do mundo.

Dez anos depois, caiu o Muro de Berlim e, com a União Soviética ruindo, Cuba ficava cada vez mais isolada. Fidel voltou a Nova York em 1995 para o aniversário de 50 anos da ONU. Dessa vez, o cubano falou por apenas seis minutos, mas foi mais ovacionado do que o então presidente americano, Bill Clinton. “Esse é o aniversário de 35 anos da minha primeira visita a essa vizinhança”, disse Fidel. “E o mais inacreditável é que eu continuo sendo expulso. Continuo sendo deixado de fora dos jantares como se nada tivesse mudado em todos esses anos, como se ainda estivéssemos na Guerra Fria.”

O então prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, se recusou a se encontrar com Fidel e a convidá-lo para os eventos com líderes mundiais. “Eu não o convidaria para lugar nenhum. O que Fidel Castro tem feito ao povo cubano, incluindo alguns amigos meus, é um ultraje”, afirmou Giuliani.

Ao visitar a redação do jornal The New York Times, o líder da Revolução Cubana disparou: “Eu não votaria nesse prefeito. Não apenas porque ele não me convidou para o jantar, mas porque no meu caminho pela cidade do aeroporto, havia inúmeros buracos enormes nas ruas”.

Durante o tempo em que ficou no poder, Fidel desafiou dez presidentes americanos. Em sua última passagem pelos EUA, em 2000, Giuliani o qualificou de “assassino”, mas Clinton falou com o líder e apertou sua mão. O presidente cubano fez um discurso de três horas e meia na igreja de Riverside e disse para os cerca de 3 mil presentes que ele amava as “verdadeiras pessoas” de Nova York. “Em Harlem é onde eu tenho meus melhores amigos.”

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