AFP PHOTO / AHMAD AL-RUBAYE
AFP PHOTO / AHMAD AL-RUBAYE

As vidas destroçadas de mulheres e crianças que viviam em Mossul

Algumas esperam o retorno de seus maridos; outras, já viúvas, não esperam por mais ninguém

O Estado de S.Paulo

10 Julho 2017 | 07h00

MOSSUL, IRAQUE - Em Mossul, cidade que acaba de ser libertada pelo Exército iraquiano do controle dos jihadistas, os mais fracos pagam a sua sobrevivência a preços elevados, assim como as centenas de mulheres e crianças libertadas do grupo Estado Islâmico (EI).

Nos arredores da Cidade Antiga, onde o ressoar dos tiros das armas automáticas e explosões de morteiros ainda continuava, 15 mulheres e cerca de 50 crianças esperavam em fila em uma calçada na sombra para se proteger de um sol escaldante.

Os militares haviam acabado de trazê-las de Maidan, último bairro onde os extremistas do EI resistiam às forças iraquianas. Fátima explodia em lágrimas ao contar sobre os quatro meses passados com sua família sem "quase nenhuma comida ou água" em um porão, monitorado pelo EI, rezando para não ser bombardeado.

Naquela mesma manhã, quando a rua parecia ter sido libertada pelo Exército, elas voltaram a ver o céu e caminharam para a liberdade. Uma bala atingiu Ahmad, o irmão de Fátima. Ele foi levado em uma ambulância.

Outra mulher soluçava olhando para o céu. Ao deixar a Cidade Antiga de Mossul, Liqaa deixou para trás o corpo de seu irmão Ibrahim, também atingido por um franco-atirador jihadista. Ela começou a cantar o nome de Ibrahim e a procurar consolo em sua vizinha.

Algumas mulheres esperam o retorno de seus maridos, alguns dos quais são controlados pelos militares encarregados de rastrear os jihadistas que tentam fugir. As outras, já viúvas, não esperam por mais ninguém.

Compassivos, os soldados e trabalhadores humanitários distribuem bolos, água, suco de laranja e frutas para as crianças, que muitas vezes chegam desidratadas. "Duzentas e cinquenta pessoas deslocadas chegaram aqui hoje", explicou sob condição de anonimato um funcionário de uma ONG local, que lhes dá comida. Segundo ele, "um quarto está ferido, a maioria por tiros de franco-atiradores ou morteiros jihadistas".

Os deslocados internos que não têm parentes na região serão enviados para campos fora da cidade.

Angústia

Na calçada, uma menina de cerca de 3 anos andava perdida. Cabelo castanho desgrenhado, túnica azul-turquesa e atadura branca no pescoço, ela apertava contra o seu coração uma pequena garrafa de água meio vazia. "Quem é essa criança?", gritou um soldado. Ao redor, as mulheres choravam demais para responder.

Um pouco mais adiante, uma jovem mãe, túnica preta e um véu azul, agachava-se contra uma parede. Primeiro silenciosa, depois seu corpo se contorceu pela dor na calçada. Ela implorava ao soldado mais próximo para ouvir sua angústia.

Uma hora antes, ela havia perdido seu filho de 7 anos de idade em um bombardeio quando a família, escondida há vários meses, preparava-se para fugir. "Eu não pude fazer nada", gritava ela.

Para apoiá-la, sua filha mais velha de 10 anos, em pé ao seu lado, enxugava suas lágrimas. "Não chore, mamãe", dizia ela. Sua túnica estava manchada com o sangue do irmão. Seu rosto bonito, congelado, parecia ter perdido toda a inocência.

Na calçada oposta, Samira, de cerca de 20 anos, abraçava em seu colo suas duas filhas, com medo e cobertas de fuligem. Ela tentava acalentar seu bebê de poucas semanas, que tem a pele acinzentada e não estava se movendo.

"O EI atirava contra nós sempre que tentávamos sair. E lá fora, eram os bombardeios. Foi terrível", afirmou, tremendo. O bebê começou a chorar, como se retornasse à vida, sob o olhar aliviado dos socorristas. Ele teve muita sorte. Não terá lembranças da terrível batalha de Mossul. / AFP

Mais conteúdo sobre:
Iraque Estado Islâmico

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.