As vísceras dos ditadores

Ironicamente, os mais determinados adversários dos EUA no hemisfério foram afetados por problemas abdominais

Ann Louise Bardach, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2011 | 00h00

O concerto realizado no dia 12 para celebrar o 85.º aniversário de Fidel Castro, no Teatro Karl Marx, em Havana, foi batizado de Serenata de la Fidelidad (Serenata à Fidelidade). Em se tratando de obras abertamente dedicadas ao líder máximo de Cuba, prefiro A Fidelíada - que relata sua épica, exaustiva e interminável trajetória, iniciada em 1959.

Cerca de 5 mil pessoas compareceram à homenagem prestada por 22 cantores, entre eles Omara Portuondo, do filme Buena Vista Social Club, mas o convidado de honra não estava presente. Em vez disso, ele preferiu uma celebração mais calma na companhia da família, o irmão Raúl, de 80 anos, seu sucessor na presidência, e seu devotado discípulo, o presidente venezuelano Hugo Chávez. O irrepreensível Chávez revelou a notícia pelo Twitter: "Aqui com Fidel, celebrando seu 85.º aniversário! Viva Fidel!"

Ao longo da última década, os dois líderes celebraram juntos um bom número de aniversários. Em 2001, na comemoração dos seus 75 anos, Fidel foi até Caracas fazer uma visita a Chávez, que o recebeu com um jantar de gala seguido por um passeio náutico pelas florestas tropicais venezuelanas. Segundo Chávez, a visita "nos dá uma oportunidade de fazer com que ele saiba o quanto nós o amamos".

Mas é difícil saber quantos aniversários os dois líderes ainda têm pela frente. Ambos estão enfrentando os maiores desafios de suas vidas - não por parte de movimentos oposicionistas nem dissidentes, e sim de seus próprios corpos fragilizados. Fidel quase morreu em 2006 durante uma complicada cirurgia no cólon para tratar um pernicioso caso de diverticulite crônica. Ele passou o 80.º aniversário num leito hospitalar, recebendo antibióticos e se alimentando por via intravenosa.

Sentado ao lado dele estava Chávez, presente em cada estágio dos cinco anos de convalescença de Fidel. Agora o venezuelano de 57 anos está lutando pela própria vida, depois que um tumor do tamanho de uma bola de beisebol foi retirado do seu abdômen num dos melhores hospitais de Havana em junho.

Foi Fidel - e não um oncologista, parente ou cirurgião - quem deu a Chávez as más notícias após a operação, detalhando o prognóstico dele e as etapas do seu tratamento, oferecendo também suas habituais dicas para as relações públicas e as estratégias políticas. Com base nas cirurgias, nos sintomas e no tratamento, é provável que Chávez tenha um câncer colorretal em fase de metástase. Ele deve ser submetido a pelo menos seis meses de quimioterapia em Havana, onde acaba de concluir uma segunda fase da recuperação.

Parece que Fidel passou boa parte do seu aniversário fazendo a seu amigo um discurso motivacional. "Ele me disse: "Chávez, talvez você se convença de que está tudo acabado... Mas não, este não é o fim"".

Ironicamente, os mais indomáveis ditadores do hemisfério e mais determinados adversários dos Estados Unidos e da economia de mercado foram derrubados, ao menos momentaneamente, por problemas abdominais - suas vísceras, por assim dizer. Trata-se apenas de mais uma anormalidade partilhada pelo líder do país com as maiores reservas mundiais de petróleo e o de uma endividada ilha caribenha.

A simbiose entre Fidel e o coronel venezuelano transformado em sultão do petróleo é a mais fascinante e poderosa aliança política das Américas. Cinco anos antes de se tornar presidente em 1999 e dois anos após uma tentativa fracassada de golpe, Chávez foi libertado da prisão e voou até Havana na esperança de se reunir com seu herói revolucionário. À espera dele para dar as boas-vindas logo no aeroporto estava o próprio Fidel. Desde então os dois têm trocado juras de amor.

Mais importante, depois que Cuba perdeu o patrocínio russo e mergulhou numa queda livre econômica, Chávez concedeu ao amigo um dos presentes mais magnânimos da história - 100 mil barris diários de petróleo grátis. Em troca, Fidel enviou milhares de médicos a Caracas.

Adoração. Fidel é agora alvo de uma verdadeira adoração por parte de um líder que o chama alegremente de "mi padre". Não sem motivo. Em 2002, quando um golpe pareceu ter afastado Chávez do poder, foi Fidel quem passou seguidas noites ao telefone, ensinando ao seu pupilo uma estratégia para recuperar o poder e se livrar de seus inimigos.

Conselheiros cubanos são encontrados em todos os ministérios venezuelanos, prestando orientação quanto a tudo. "No fundo somos um só governo. Não é à toa que são chamados de Venecuba", diz o convalescente líder venezuelano.

Assim sendo, se o estado de saúde de um dos dois líderes piorar ainda mais - e ambos estão caminhando no fio da navalha -, todas as apostas serão desfeitas. É impossível exagerar quando comentamos o simbolismo que envolve a figura de Fidel na América Latina; a legitimidade de Chávez enquanto revolucionário bolivariano depende, em boa parte, da orientação que ele recebe do mentor Fidel. Se Chávez sucumbir à doença ou se for (de alguma forma) derrotado nas urnas, a torneira do petróleo da qual Cuba se beneficia pode ser fechada por um sucessor menos generoso. Raúl Castro, que tenta salvar a falida economia cubana com todo tipo de solução e reforma, depende especialmente da benevolência venezuelana.

Apesar da frágil saúde dos dois titãs, as mudanças estão chegando a Cuba. Recentemente ocorreu, por exemplo, o casamento entre um homossexual soropositivo e um transexual no aniversário de Fidel. Anunciando a união como seu "presente" ao ditador, o feliz casal passeou de conversível por Havana, cidade na qual os homossexuais eram antes arrastados para a prisão sob a acusação de serem contrarrevolucionários.

A tolerância ao empreendedorismo também está aumentando. Os cubanos logo poderão vender suas casas pela primeira vez desde que os Castros chegaram ao poder. E o governo Obama suspendeu muitas das inúteis e onerosas restrições de viagem à Cuba.

É claro que, se Marco Rubio, senador americano linha dura de origem cubana, for o escolhido pelos republicanos para se candidatar à vice-presidência, os democratas se verão pressionados a endurecer o embargo novamente. E, se os republicanos forem vitoriosos em 2012, as relações entre EUA e Cuba provavelmente voltarão à Idade da Pedra do distanciamento, com base no mantra de que "Fidel partirá a qualquer momento".

Apesar da aparência frágil, eu não apostaria na iminência da reunião de Fidel com o seu criador. Ele sobreviveu a três grandes cirurgias e à perda de boa parte de suas vísceras, para não mencionar os governos de dez presidentes americanos. Certamente, há nos principais ministérios do governo cubano um número suficiente de parentes da família Castro - principalmente o filho e os genros de Raúl - para garantir certo grau de sucessão dinástica. Mas a grande preocupação demonstrada por Fidel em relação ao seu pupilo venezuelano sugere que, na ilha, é grande o medo de perder o patrocínio de Chávez.

Dito isso, no caso de Chávez bater as botas antes do seu aliado cubano, Fidel, o estrategista máximo, deve ter sem dúvida um plano de contingência guardado para esta emergência - como o que ele se viu obrigado a adotar após a retirada soviética. Confiança e sentimentalismo não fazem parte do seu credo político. Debatendo uma traição anterior por parte de um compañero convertido em informante, Fidel disse ter aprendido uma lição fundamental: "Não se deve confiar em alguém simplesmente por se tratar de um amigo". Nem confiar, nem depender.

"Fidel é uma força da natureza", observou seu amigo, o autor Gabriel García Márquez. "Em se tratando dele, nunca se sabe." Ou, como se lamenta em Miami: "Imortal até que se prove o contrário". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É JORNALISTA E ESCRITORA

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