Ascensão de líderes islâmicos obriga EUA a enfrentar tabus

Análise: Scott Shane / NYT

O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2012 | 03h08

Em seu primeiro grande discurso, no mês passado, o novo presidente do Egito, Mohamed Morsi, prometeu lutar pela libertação de um notório terrorista egípcio que está em uma prisão na Carolina do Norte, EUA. Antes, um membro de uma organização terrorista, a Gamaa al-Islamiyya - também eleito recentemente ao Parlamento do Cairo - foi recebido em Washington como integrante de uma delegação oficial em viagem patrocinada pelo Departamento de Estado.

Representantes do governo Barack Obama não comentaram publicamente a promessa de Morsi nem tentaram explicar o motivo pelo qual o membro do Parlamento egípcio, Hani Nour Eldin, conseguiu um visto. Pressionada pelos repórteres depois que a permissão rapidamente virou motivo de polêmica no Congresso, a porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland, disse que as autoridades consideraram que Eldin não representava nenhuma ameaça. "Este é um novo dia para o Egito", ela acrescentou. "É um novo dia para muitos países em todo o Oriente Médio e o Norte da África."

Para o governo Obama, que procura encontrar um rumo na tumultuada Primavera Árabe, é também um dia complicado. Os antigos pressupostos sobre os países considerados amigos ou inimigos dos EUA foram subvertidos, deixando muitos americanos confusos. "Neste momento, os EUA estão numa espécie de transição a respeito do Oriente Médio", disse Akbar Ahmed, da American University, de Washington. "Tudo mudou."

A deposição de ditadores e a ascensão dos islâmicos a um novo patamar de influência obriga Washington a reavaliar julgamentos que mantinha como certos há dezenas de anos. O mais importante é o que ocorre no Egito, onde Morsi, que representa o movimento islâmico mais poderoso da região, a Irmandade Muçulmana, se elegeu por uma margem estreita.

Sua decisão, no domingo, de reinstaurar o Parlamento que havia sido dissolvido fez com que os especialistas ocidentais tentassem desesperadamente entender sua estratégia.

Na Tunísia, um partido islâmico outrora banido, o Ennahda, ganhou várias cadeiras nas eleições do ano passado e os islâmicos obtiveram novo apoio também no Iêmen. Na disputa de domingo, a Líbia aparentemente rejeitou essa tendência e uma coalizão liderada por um cientista político moderado derrotou, ao que tudo indica, dois partidos islâmicos. Mas, num sinal da força política da religião, o líder da coalizão vencedora, Mahmoud Jibril, esforçou-se por rejeitar o rótulo de "secular" para sua Aliança das Forças Nacionais, recorrendo aos islâmicos. "Não há extremistas", ele disse.

Fim do maniqueísmo? Na década após os ataques do 11 de Setembro, os americanos viam em geral o Oriente Médio e o Islã através das lentes da ameaça terrorista. Os EUA apelaram a julgamentos rigorosos, sintetizados na advertência feita pelo presidente George W. Bush ao mundo, nove dias depois dos ataques: "Ou vocês estão conosco ou estão com os terroristas".

Estudiosos muçulmanos estrangeiros não receberam vistos por suas posições abertamente contrárias à política americana. As autoridades nos EUA nem sempre distinguiram cuidadosamente entre islâmicos que defendem um papel preponderante para o Islã no governo e os jihadistas violentos, que têm o mesmo objetivo, mas defendem o terrorismo para alcançá-lo.

A hostilidade americana ao movimento islâmico, na realidade, vem de muito antes do 11 de Setembro, em parte pelo apoio dos EUA aos autocratas seculares dos países árabes. Durante o reinado de 30 anos de Hosni Mubarak no Egito, a Irmandade Muçulmana esteve oficialmente banida e os diplomatas americanos no Cairo mantinham contatos discretos e informais.

"Não hostilizamos a Irmandade Muçulmana", declarou Condoleezza Rice, então secretária de Estado dos EUA, em um discurso no Cairo, em 2005. "Nem hostilizaremos."

Especialistas em Oriente Médio sugerem que as recentes polêmicas suscitadas pela declaração de Morsi e pelo visto dado a Eldin são apenas o começo de um longo e controvertido processo de ajuste para os EUA, com implicações para a ajuda americana e para as relações dos países árabes com Israel. Mas os americanos não devem pressupor que a ascensão dos islâmicos radicais colocará os EUA num perigo maior em razão do terrorismo. Segundo eles, o oposto será mais provável. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.