Kacper Pempel/REUTERS
Kacper Pempel/REUTERS

Ascensão de PiS e Fidesz pode ser explicada por questões históricas

Para a professora da Universidade de Södertörn Elżbieta Korolczuk, instabilidade de sistemas políticos, transformação econômica e questões de identidade fortalecem programas de partidos iliberais

Thaís Ferraz e Ilana Cardial, especial para o Estadão

12 de abril de 2021 | 10h00

Questões históricas como a identidade da Europa Central e o nacionalismo ajudam a entender a transformação iliberal na Polônia e na Hungria, afirma a professora de sociologia da Universidade de Södertörn Elżbieta Korolczuk. Para ela, crises mais recentes, como a dos refugiados, em 2015, e o fortalecimento de campanhas anti-gênero que usam o pânico moral para mobilizar as pessoas também têm um papel importante na movimentação.

Confira a entrevista:

É possível determinar o marco inicial da transformação iliberal na Polônia?

Boa pergunta. Eu diria que as raízes estão realmente no início da democracia na Polônia em 1989. Porque na época tanto grupos liberais, alinhados à esquerda, e grupos conservadores compartilhavam a visão de que precisávamos que a igreja exercesse um papel importante também como instituição política, não apenas religiosa, atuando como força estabilizadora no processo de democratização. E isso em conexão com as maneiras pelas quais a Igreja tem assumido um papel de liderança, de impactar a educação, os serviços sociais, e com as maneiras pelas quais ela tem sido extremamente bem-sucedida em arrecadar fundos a ponto de, por exemplo, ser hoje a maior dona de terras não estatais da Polônia. Creio que na Polônia, e em muitos outros países, o fundamentalismo religioso é uma parte muito importante da transformação iliberal. Temos hoje uma situação em que cada vez menos pessoas vão à igreja, mas ela tem poder como instituição política.

O segundo elemento se conecta à história polonesa e às maneiras como o nacionalismo está intrincado nela. Há uma linha tênue entre nacionalismo e patriotismo. Mas a ideia é que você poderia usar o poder simbólico das visões nacionalistas para fortalecer o apoio das pessoas a um partido político. Isso tem sido muito visível tanto no lado liberal quanto no conservador. Quando você olha para o ano de 2015, quando PiS e sua coalizão de direita venceram as eleições, você pode ver uma convergência de vários elementos. Um é o econômico, relacionado à crise de 2008, ainda que a Polônia tenha sido relativamente menos afetada por ela. Há estudos que investigam como a produtividade na Polônia aumentou vertiginosamente, mas os salários têm se mantido muito estáveis. Isso abala a sensação de estabilidade e realmente fez muita gente pensar que suas expectativas não seriam correspondidas. Em termos de economia, mas também em termos do Estado não atender realmente aos necessitados. Então são três elementos: a igreja católica e seu poder, o enquadramento nacionalista e a forma como ele foi muito bem estabelecido no cenário político polonês, e a maneira como as pessoas se sentem suprimidas no processo de determinação de suas condições de vida.

Você escreveu em um artigo que, ao menos no início, os eleitores do PiS eram mais atraídos por promessas econômicas do que por uma luta contra a democracia liberal. Quando isso mudou? E qual foi o papel da luta anti-gênero na chegada do partido ao poder?

Acho que, como sempre, você tem diferentes grupos que apóiam regimes populistas de direita ou partidos de extrema direita. Você tem o grupo de pessoas profundamente religiosas ou bastante conservadoras, de cidades menores, que sentem que o ritmo da mudança cultural é demais para elas. Elas estavam realmente preocupadas com o sistema social, e foi muito fácil convencê-las de que haveria grupos “genderistas” vindo atrás das crianças, mudando os meninos. Do outro lado, vivemos um momento bastante forte da direita nacionalista na Polônia, impulsionado principalmente por homens jovens. Como de costume, eles temem que seu domínio na sociedade esteja sendo abalado por essas mudanças. 

Mas também é importante notar que as campanhas anti-gênero estão de fato usando habilmente o pânico moral para mobilizar as pessoas. Em 2009, por exemplo, houve uma reforma para alterar a idade escolar inicial das crianças na Polônia, que passaria de 6 para 5 anos. Houve um grande debate sobre isso, com um movimento contrário à mudança que era interessante porque combinava alguns elementos conservadores, como a defesa de que as crianças deveriam passar mais tempo com os pais, e alguns liberais, como a defesa de que as crianças não deveriam ser mandadas à escola mais cedo para entrarem para o mercado de trabalho mais cedo. Esse debate teve muita influência sobre a vitória do PiS. 

Eu acredito que para muitas pessoas, em 2015, alguns dos elementos atrativos do programa do PiS eram a transferência de dinheiro para famílias, a promessa de aumento do salário mínimo e assim por diante. Para alguns dos eleitores, era isso. Mas alguns tornaram-se muito mais investidos, com o tempo, nesse tipo de narrativa anti-gênero, porque quando o PiS chega ao poder, ele abre espaço para que organizações anti-gênero falem com as pessoas, tenham seu espaço na televisão nacional e assim por diante. É um processo.

Quais elementos internos e externos na Polônia e na Hungria podem nos ajudar a entender a ascensão de partidos como o PiS e o Fidesz?

É claro que a questão óbvia é a instabilidade dos sistemas políticos. Na Polônia, até 2011, nenhum partido havia sido eleito duas vezes. Isso mostra o quão instável esse sistema realmente é. 

Eu acho que tanto na Hungria quanto na Polônia, o que também foi importante foi a transformação econômica. A transformação democrática foi conectada à transformação econômica, e você tem essa situação em um sistema iliberal é implementado não necessariamente de uma forma antidemocrática. 

E claro que tem isso: na Europa central, existe essa questão de ‘quem somos nós? Somos o Centro? Estamos entre o Ocidente e o Oriente… e é claro que sabemos pela história que estar alinhado com a Rússia geralmente termina mal, mas ao mesmo tempo não queremos ser aqueles que têm que acompanhar o Ocidente o tempo todo. Então acho que tanto o Fidesz quanto o PiS capitalizam esse senso de marginalização, de não-prioridade, de que somos os irmãos mais novos a quem o tempo todo dizem o que devemos fazer. Acho que essa espécie de moldura anti-colonial usada por esses partidos tem sido muito útil. 

Mas acho que a crise dos refugiados de 2015 também foi importante. Ela foi apresentada como uma ameaça final às sociedades monoculturais e mono raciais como Polônia e Hungria. É um grande problema na Polônia, que historicamente se conecta ao anti-semitismo, ao nacionalismo. Nesse sentido, é fácil criar uma sensação de estar sob cerco. Especialmente se você pensar em como funciona a UE, onde países como Hungria e Polônia têm pouco a dizer, não exercem papel de liderança. Isso é algo que pode ser explorado politicamente. E há também a emigração, principalmente no caso da Hungria, que é um país que tem perdido grandes parcelas da população para outros países, principalmente para o Ocidente. Isso se soma a essa espécie de “pânico demográfico” que tem sido explorado pela direita. Claro, há países que sofreram mais com a emigração, como a Lituânia, por exemplo, mas neles faltam esses outros elementos. É a junção de todos eles que torna a situação explosiva. 

Quem são os principais atores anti-gênero na Polônia hoje? E qual é o papel da sociedade civil nesse cenário?

Basicamente, as organizações anti-gênero fazem parte da sociedade civil. Esse é o paradoxo delas. Porque por muito tempo, na Polônia e em outros países, havia essa ideia de que a principal resposta a questões como nacionalismo, xenofobia, desigualdade, estavam na sociedade civil. Mas não prestamos atenção ao fato de que a sociedade civil, em termos de organizações, fundações, associações, também pode ser corrosiva à democracia, pode ser antidemocrática, mesmo que se afirme ser democrática. Nesse sentido, podemos observar as organizações transnacionais, como a brasileira TFP (TradiçãoTerra, Família e Propriedade), uma das fundadoras do Ordo Iuris, que é hoje um dos principais atores anti-gênero na Polônia. Há uma interconexão. 

Entre os atores principais, temos padres, organizações que existem desde os anos 90 e agora estão mais profissionalizadas, têm presença online e etc, ativistas de colarinho branco, como o Ordo Iuris, que tem hoje 40 advogados. O Ordo Iuris é muito ativo. Ele se apresenta como um think tank, como um grupo de especialistas em políticas familiares, questões sociais e questões de gênero, fazem muito advocacy e abrem litígios, tanto a nível nacional quanto na UE. Eles oferecem treinamentos, têm cooperações com organizações fora da Polônia e agora estão cada vez mais dentro de instituições do Estado – o fundador da Ordo Iuris, por exemplo, está na Suprema Corte.

 

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