Ascensão e queda da gordura na Índia

País que adora estátuas de deusas rechonchudas vê multiplicação de spas

Ranjani Iyer Mohanty, The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2011 | 00h00

Quando bebê, eu era esquelética; sempre fui magra quando garota e também na juventude. Era possível ver o formato da minha clavícula; meus cotovelos se destacavam e os ossos do pulso saltavam para fora. Durante todos os anos de escola, vivi complexada por causa das minhas longas pernas. Muita gente se perguntava porque eu era tão esquálida, especialmente pessoas estranhas. Minha mãe não me alimentava o suficiente? (Ela era uma cozinheira maravilhosa). Meu pai não ganhava o necessário? (Ele teve educação superior, formado em engenharia, e tinha um excelente emprego). Havia alguma coisa errada comigo? Eu era uma pessoa brilhante, feliz, saudável, mas...

Há muito tempo na Índia gordura é encarada como algo benévolo. Durante séculos, o ideal era que a estrutura óssea de uma criança ou mulher não deveria estar visível. As estátuas de deusas são bem arredondadas. Imagens do deus Krishna bebê o retratam como um boneco de pelúcia. Mesmo nos anos 70, a atriz Sridevi, conhecida carinhosamente como "coxas famosas" costumava dizer que se obrigava a comer exageradamente para "manter a imagem" - da mulher rechonchuda que os fãs conheciam e amavam.

Ser gordo na Índia sempre foi sinal de posse - como ter uma bolsa Birkin, por exemplo. Ser gordo significa que você é suficientemente rico para se permitir comer muito sem ter de se exercitar. Ser gordo significa que você é uma pessoa amada e bem cuidada; e, no final, talvez tudo isso implique em um elo entre gordura e felicidade. Inversamente, ser magro significa ser pobre - social, econômica e esteticamente.

Mas estamos em meio a uma mudança histórica na Índia. Aos poucos, ser gordo já não significa prosperidade e, sim, que você não tem tempo, dinheiro ou recursos para se manter em forma. Esta mudança pode ser uma consequência da globalização - estamos mudando a nossa percepção de beleza para nos ajustarmos a uma imagem mais ocidentalizada. Vogue e Harper"s Bazaar fazem parte de uma lista cada vez maior de revistas internacionais com edições indianas, todas promovendo o ideal de magreza imposto pela moda global.

No setor cinematográfico da Índia, os atores e atrizes deliciosamente roliços dos anos 1970 e 1980 foram substituídos por homens musculosos e mulheres esbeltas. Kareena Kapoor é sempre retratada pela mídia indiana em tons entusiásticos, embora uma crítica persista: a de ser esquelética. Ainda assim, ela é uma das atrizes mais solicitadas de Bollywood.

Nos últimos anos têm proliferado os spas para emagrecimento, repletos de anúncios com "antes e depois" e ofertas especiais. E para aqueles que não querem enfrentar a agonia das dietas e exercícios, as clínicas de lipoaspiração também estão em crescimento.

Talvez o motivo seja que o mundo chegou à conclusão de que obesidade é um problema de saúde. Nos últimos anos, uma série de estudos têm alertado consistentemente para o aumento da obesidade. Embora os pobres da Índia continuem assolados pela desnutrição e anemia, as pessoas da classe média emergente repentinamente conseguiram se permitir um estilo de vida melhor. Não precisam mais ir a pé, de bicicleta, ou usar o transporte público para o trabalho ou o mercado. Podem comer o que quiserem, incluindo "fast food" ocidental.

O problema está concentrado em segmentos da população e por diferentes razões: entre as crianças da escola particular cujos pais, ricos, dão a elas tudo o que o dinheiro pode comprar; entre os jovens profissionais, que não têm tempo para se exercitar; e entre as mulheres de meia idade que hoje podem se permitir descansar e aproveitar os frutos do seu trabalho.

Recentemente, realizou-se na Índia a Semana Nacional da Nutrição, onde o tema da obesidade foi discutido juntamente com o da desnutrição. Nesta semana, a Assembleia-Geral das Nações Unidas reúne-se para discutir a epidemia da obesidade e como ela vem alimentando outras doenças crônicas, como doenças cardíacas, diabete e câncer.

Agora, se conseguirmos mudar totalmente essa noção, rompendo definitivamente o vínculo entre gordura e prosperidade, gordura e beleza, ser gordo e ser amado - daremos os passos necessários na direção de um futuro mais saudável.

Controlando a obesidade, não vamos conseguir somente evitar muitas doenças associadas a ela, mas também redirecionar nossos recursos para outras necessidades, como a erradicação da desnutrição e da anemia. E nesse processo poderemos criar novas oportunidades de negócios, incluindo um vigoroso setor direcionado à boa forma física.

Quando uma amiga me elogiou recentemente por causa da minha aparência - eu usava saia e um top sem manga, ela usou uma frase em hindu equivalente a: "você está ótima, minha amiga. Anda fazendo ginástica?".

Eu sorri e casualmente exibi minha perna magra - quero dizer, bem torneada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ESCRITORA E EDITORA

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