Ásia concentra reis milionários e absolutistas

Sangue azul e exploração de reservas de petróleo são garantias de poder quase sobrenatural

Cristiano Dias, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2007 | 00h00

Se para as nações ocidentais a monarquia é um resquício do século 19, em vários países a realeza é parte fundamental da engrenagem política. A Ásia é o lugar onde o direito divino dos reis mais resiste ao tempo. Na Arábia Saudita, no Butão, na Tailândia e em Brunei, o sangue azul ainda é garantia de poder absoluto. Impulsionadas pelo petróleo, o poder sobrenatural da maioria dessas realezas é sustentado pela exploração, em caráter praticamente privado, dos recursos energéticos do país. A dinastia saudita, por exemplo, amealhou sua fortuna só depois que o petróleo jorrou, em 1948. A realeza foi fundada em 1932 pelo patriarca Abd al-Aziz al-Saud (1932-1953), que passou o trono, o país e toda a dinheirama para seus descendentes. Hoje, a família real tem mais de 4 mil príncipes e 30 mil membros. O rei atual, Abdallah bin Abd al-Aziz al-Saud, está sentado sob 25% das reservas mundiais conhecidas de petróleo e tem uma fortuna pessoal de US$ 25 bilhões. Ele é chefe de Estado e de governo. Não há no país Parlamento, partidos políticos nem Constituição - o país é governado pela Sharia, a lei islâmica. No papel, a Tailândia é uma monarquia constitucional. Na prática, no entanto, o rei Bhumibol Adulyadej é uma espécie de guru da nação. No trono desde 1946, é o monarca que reina há mais tempo no mundo. Os tailandeses reverenciam o rei como um Deus. Não falam seu nome em vão, não fazem piadinhas sobre a família real - em março um suíço foi condenado a 10 anos de prisão por alterar uma imagem de Bhumibol. O rei tailandês é visto como um articulador político. Sua atuação, desde os anos 40, varia de acordo com as necessidades: ora permite uma abertura democrática, ora fecha completamente o regime. Embora não tenha essas prerrogativas constitucionais, ele tem poderes para perdoar criminosos, veta premiês e nomeia quem quiser para cargos no Executivo.Jigme Singye Wangchuk, pai do atual rei do Butão, manteve o país completamente isolado do mundo até 1998, quando decidiu diluir seus poderes ilimitados. Assustado com o fim da monarquia no Nepal, ele permitiu que o país tivesse televisão, internet e telefones celulares. Como guardião do budismo no país, inventou que a felicidade era o verdadeiro capital do povo e criou um índice: a "Felicidade Absoluta Bruta", que, em vez do Produto Interno Bruto, serviria para medir o progresso butanês. No final de 2006, ele abdicou do trono em nome do filho, Namgyel, educado em Oxford. O novo monarca prometeu eleições legislativas e uma Constituição, mesmo a contragosto da população, que quer que as coisas fiquem do jeito que estão. Talvez a monarquia mais pitoresca do mundo seja do sultanato de Brunei. O sultão, Hassanal Bolkiah, governa o país ditatorialmente desde 1968. Ele acumula os cargos de chefe de Estado, chefe de governo e ministro das Finanças. Governa por decreto e nomeia todos os membros do Executivo e do Legislativo. Sua legitimidade está na conta bancária. Com uma fortuna pessoal de US$ 40 bilhões, ele é um dos homens mais ricos do mundo. O Palácio Real de Istana Nurul Iman tem US$ 1,4 bilhão em obras de arte, zoológico particular, 1.800 quartos, mais de 300 carros e uma Ferrari folheada a ouro.

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