Asiya, a armênia que deve a vida à beleza da mãe

Ela ainda vive no local onde 10 mil foram mortos em 1915; paixão de soldado turco salvou a família

CHRIS BOHJALIAN, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

13 Junho 2013 | 02h02

Uma mulher que conheci no mês passado no sudoeste da Turquia vai morrer, provavelmente, em pouco tempo. Exceto por algumas pessoas em sua pequena aldeia de Chunkush, ninguém sentirá a sua falta. Mesmo os parentes que a amam provavelmente pensarão, bem, ela tinha 98 anos. Ou 99. Ou, se ela sobreviver até 2015, algo em torno de um século. Ela terá vivido uma longa vida.

Quando voltar à aldeia e souber que ela realmente se foi, suspeito que vou chorar. Por que chorar por uma mulher que só encontrei uma vez, que viveu uma longa vida e não conseguia entender uma palavra do que eu disse, que só fala turco, língua na qual só sei dizer "por favor" e "obrigado"? Porque Asiya é a última armênia sobrevivente em Chunkush.

Eu a conheci quando estava viajando com seis amigos americanos armênios por uma parte da Turquia a que muitos armênios (eu entre eles) se referem como a Armênia Histórica. Estávamos fazendo uma peregrinação para visitar as ruínas de igrejas e mosteiros armênios, os restos de uma cultura obliterada desse canto da Terra no genocídio armênio.

Durante a 1.ª Guerra, 1,5 milhão de armênios foram sistematicamente aniquilados - três em cada quatro deles viviam no Império Otomano. Em Chunkush, até 1915, vivia uma próspera comunidade de 10 mil armênios.

Em alguns dias de pesadelo naquele verão, gendarmes turcos e brigadas assassinas curdas invadiram a aldeia e fizeram quase todos os armênios marcharem por duas horas até uma ravina chamada Dudan, onde os mataram a tiros, a golpes de baioneta ou simplesmente os atiraram no precipício de dezenas de metros de altura. Mas um dos gendarmes puxou a mãe de Asiya da beira do precipício porque a achou bonita. Ele resolveu se casar com ela. Assim, ela foi poupada.

Meus companheiros e eu não havíamos esperado encontrar Asiya quando visitamos Chunkush. Quando estávamos de partida, um sujeito magro de 60 anos, com o rosto profundamente marcado e um boné de beisebol na cabeça, correu até nossa van e bateu na porta. Estávamos ali havia três horas e espalhara-se a notícia de que havia americanos na cidade. Nós tínhamos de conhecer a sua sogra, ele disse.

Nosso motorista curdo temia que aquilo fosse o começo de um lamentável incidente internacional: sete americanos sequestrados ou mortos. Mas o sujeito estava desesperado, por isso, concordamos em conhecer Asiya. Meu amigo Khatchig Mouradian, editor do Armenian Weekly, nos EUA, fala turco e traduziu.

Eu já havia conhecido sobreviventes do genocídio armênio, entre eles os meus avós. Mas conhecer Asiya foi diferente. Ela não estava em Washington, Paris ou Beirute. Ela não fazia parte da diáspora armênia, onde geralmente encontramos os poucos sobreviventes. Ali estava alguém cuja mãe estivera na beira do penhasco - e ainda estava vivendo onde seus avós haviam sido executados. Onde a cultura de seus ancestrais havia sido exterminada. Após o massacre, a cidadezinha de 10 mil armênios foi reinventada como uma cidadezinha de 10 mil curdos.

Ela e a mãe haviam crescido e envelhecido conscientes de quem e do que elas eram - armênias -, mas obrigadas a se conformar e permanecer em silêncio. Esse era o preço da sobrevivência nos dias após o genocídio e um costume que, em cidadezinhas como Chunkush, persiste até os dias de hoje. É essa, talvez, a verdadeira definição de um armênio oculto.

Resta apenas um punhado de sobreviventes do genocídio armênio. Quando chegar o centenário, em 2015, haverá ainda menos. Espero que Asiya esteja entre nós, porque pretendo voltar a Chunkush nesse ano. Ninguém na aldeia lembrará dos 10 mil que morreram naquele precipício e caberá a pessoas como eu fazer o esforço. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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