Youssef Boudlal/Reuters
Youssef Boudlal/Reuters

Assad 'abusou' de posição do Brasil, diz diplomata sírio

Danni al-Baaj abandonou o regime de Damasco após atuar como espião dos rebeldes por mais de um ano sem ser notado

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2012 | 03h02

DAMASCO - O governo de Bashar Assad "abusou" da disposição do Brasil de manter um diálogo com o regime sírio e chegou o momento de a presidente Dilma Rousseff dizer publicamente que o autocrata deve deixar o poder. A avaliação é do diplomata sírio Danni al-Baaj, que retirou seu apoio à ditadura de Assad após servir de espião para a oposição dentro do serviço diplomático de Damasco por mais de um ano sem ter sido notado.

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Há 20 dias, o diplomata que atuava na missão da Síria nas Nações Unidas optou por fugir e hoje está sob a proteção do governo suíço. Mas sua decisão de ajudar a oposição não é recente. Ele afirma que, três meses depois do início das revoltas, passou a colaborar de forma sigilosa com a oposição. "Somos muitos (os opositores) dentro do governo, do Exército, do corpo diplomático e da administração que apoiamos a queda de Assad e uma democracia. Mas, por uma decisão estratégica, vários optaram por continuar trabalhando e ajudar a desmontar o regime de dentro mesmo do sistema. Eu mesmo senti que seria mais útil para a oposição estando dentro que fora."

O problema de Al-Baaj foi ter sido descoberto como espião. Ele acredita que a suspeita ocorreu depois que ele começou a "deixar passar" na ONU a aprovação de textos de resoluções mais duros contra o regime. "Nesse momento, senti que eles suspeitaram de algo. Chegou uma ordem de Damasco determinando meu retorno ao país. Decidi me apressar para tirar meus pais da Síria e levar minha irmã para a Alemanha. Quando consegui fazer isso, o governo entendeu o que ocorria e me colocou numa lista de procurados pela inteligência do país. Então, abandonei meu posto", disse.

O diplomata diz que defendeu por muitos meses o esforço do governo brasileiro de manter o diálogo para encontrar uma solução para a crise síria. "Uma intervenção unilateral jamais funcionaria e o Brasil estava certo em rejeitar essa hipótese", afirmou, lembrando das diversas missões de diplomatas brasileiros para conversar com a ditadura. "O Brasil nunca defendeu Assad."

Al-Baaj, porém, admite que a posição do Itamaraty não foi suficiente para trazer uma solução. Na opinião dele, Assad valeu-se da iniciativa brasileira para ganhar tempo. "Houve um abuso por parte de Damasco", disse. "Chegou o momento de o Brasil ajudar a fazer pressão e dizer claramente que Assad precisa deixar o poder para que o banho de sangue seja interrompido. O Brasil ainda tem influência e essa mensagem teria um peso grande."

O diplomata não poupa críticas às posições das grandes potências que, segundo ele, estão mais interessadas em usar a Síria para "fazer avançar suas próprias agendas do que em defender o povo sírio". "A melhor forma de acabar com a crise na Síria seria um acordo entre as potências. Isso daria uma mensagem clara a Assad. Mas parece que muitas delas não querem uma solução."

Segundo Al-Baaj, Kofi Annan tinha "amplas chances" de chegar a um acordo que parasse a guerra civil. "Mas muitas potências não queriam que ele tivesse sucesso", disse, afirmando as armas dos rebeldes são fornecidas por países da região.

O diplomata afirmou que a dissidência síria rejeita a tese da presença de extremistas em seu país. "A Al-Qaeda não está na Síria. Isso é propaganda do governo. Sei disso porque estive dentro desse regime."

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