Mohammad Hannon/AP
Mohammad Hannon/AP

‘Assad acredita que pode vencer militarmente’

Negociador da oposição síria em Genebra diz que Damasco se recusa a dialogar e usa diplomacia para ganhar tempo

Jamil Chade, Correspondente / Genebra - O Estado de S. Paulo,

13 de fevereiro de 2014 | 23h43

GENEBRA - O governo de Bashar Assad não quer negociar um acordo para acabar com a guerra, pois acredita que pode vencer militarmente o conflito. Quem diz isso é Anas al-Abda, um dos principais nomes da oposição nas negociações de paz entre rebeldes e o governo de Damasco que ocorrem em Genebra nas últimas semanas. Ao Estado, o representante dos rebeldes afirmou que não vê espaço para negociar.

Por que o diálogo não avança?

Porque o governo não quer negociar. Estão usando todas as táticas possíveis para adiar ao máximo até mesmo o estabelecimento de uma agenda. No fundo, o regime acredita que ainda pode vencer a guerra no campo de batalha.

E o que a oposição quer?

Queremos um mecanismo de transição. Ontem, apresentamos o que acreditamos ser um projeto político para a Síria. Ele consiste em criar um governo de transição que permita que todas as partes no conflito sejam representadas até a convocação de eleições.

Com ou sem Assad?

Sem ele. Vivemos uma das piores ditaduras existentes no mundo. São 40 anos controlados por uma família. Isso precisa acabar. Para Assad, o que está em jogo agora não é mais seu país, mas seu poder.

Qual o próximo passo?

É difícil dizer. O governo não quer negociar. Está cada vez mais claro que o processo de Genebra é apenas uma forma que Damasco encontrou para ganhar tempo, enganar a opinião pública mundial e, enquanto isso, continuar avançando em sua guerra. Ele tem usado todas as armas contra a população, incluindo as armas diplomáticas.

Qual o real cenário na Síria?

O país está destruído. São quase 200 mil mortos, 150 mil presos, centenas e centenas de feridos, cidades arrasadas. Entre os negociadores da ONU, fala-se que a guerra é muito mais destrutiva do que a do Iraque (em 2003). Foram três anos que mudaram o destino de uma nação.

Mas essa destruição também foi causada pela oposição. A própria ONU indicou que os rebeldes estão cada vez mais radicais.

Uma parte deles sim. Mas isso foi uma resposta à repressão. Hoje, sabemos que não podemos vencer a guerra pelas armas, assim como o governo também não pode. A única solução é um acordo político.

Como o sr. vê a posição dos governos latino-americanos em relação à guerra na Síria?

É frustrante ver como os países latino-americanos não entenderam o que está em jogo na Síria. Não entenderam que vivemos numa das piores ditaduras do mundo. Talvez tenha sido um erro da oposição não se comunicar melhor com essa região do mundo sobre o que está de fato ocorrendo. O que mais me choca é que os latino-americanos também viveram ditaduras. Assad e Augusto Pinochet não são tão diferentes.

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