Assad afirma que já recebeu baterias antiaéreas da Rússia e ameaça Israel

Dois dias depois que o vice-chanceler da Rússia, Sergei Ryabkov, prometeu fornecer à Síria sistemas de defesa antiaérea como retaliação ao apoio da Europa aos rebeldes, o ditador Bashar Assad anunciou ontem que já recebeu os equipamentos e desafiou Israel. A entrega revela a escalada militar antes da conferência internacional de Genebra, em junho, que pretende dar fim ao conflito que matou 80 mil pessoas em 26 meses.

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

31 Maio 2013 | 02h02

A confirmação da entrega foi feita por Assad em entrevista à rede de TV libanesa Al-Manar, ligada ao movimento armado xiita Hezbollah, que apoia o regime sírio. O programa foi ao ar na noite de ontem, mas seus principais trechos foram antecipados pelo jornal libanês Al-Akhbar. "Tudo o que foi acordado com a Rússia ocorrerá e parte disso já ocorreu", disse o ditador à entrevistadora, sem revelar mais detalhes.

Questionado sobre o papel do Hezbollah nos confrontos mais recentes, Assad confirmou a ligação com o grupo, mas não foi taxativo em reconhecer que a facção xiita participa da guerra, em território sírio. "A Síria e o Hezbollah fazem parte do mesmo eixo", disse Assad. "O Exército sírio é o que luta e comanda os combates contra os grupos armados. Esse combate continuará até que todos os terroristas sejam eliminados."

Na terça-feira, um dia depois de a União Europeia suspender o embargo ao fornecimento de armas para os rebeldes da Síria, Ryabkov afirmou que a Rússia pretendia fornecer mísseis terra-ar S-300 ao regime para "estabilizar" o conflito e "dissuadir" interventores internacionais.

Assad afirmou que há "pressão popular" por uma disputa militar pelo Golã, ocupado por Israel desde 1967. "Há uma clara pressão popular para abrir uma frente de resistência (contra Israel) no Golã. Há vários fatores, entre eles as repetidas agressões israelenses.

Em resposta, o ministro israelense da Defesa, Silvan Shalom, afirmou que Israel pode voltar a intervir com bombardeios contra o país vizinho, mas apenas se as armas forem usadas contra seu país. "Há anos a Síria dispõe de armas estratégicas. O problema é se houver risco de essas armas caírem em mãos de outros e serem usadas contra nós", explicou Shalom. "Nesse caso, devemos agir."

A corrida armamentista na Síria é mais um dos elementos que preocupam a Comissão Internacional de Inquérito para a Síria das Nações Unidas. O organismo prepara para o dia 5 a divulgação de um relatório "sombrio", segundo afirmou ao Estado o coordenador da comissão, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, a respeito dos crimes de guerra cometidos por ambos os lados.

Para Pinheiro, o eventual fornecimento de armas pela Europa aos rebeldes aumenta o risco de que o material bélico acabe nas mãos de radicais islâmicos. "Há vários grupos que têm como objeto a transformação da Síria em um califado, o domínio de uma religião sobre as outras. No início da rebelião, os valores democráticos estavam presentes. Agora, foram encobertos", afirmou o brasileiro.

Pinheiro mantém esperanças na conferência de Genebra, preparada por Rússia e EUA, mas admitiu temer que o fornecimento de armas aos revolucionários pela UE fortaleça o conflito e o poder dos jihadistas. "O sectarismo, a radicalização e o aumento das violações de direitos humanos deixam de lado os valores da democracia."

A oposição síria, no entanto, anunciou ontem que não integrará a conferência de Genebra enquanto os aliados de Assad participarem da guerra. "A Coalizão Nacional da Síria não participará de nenhuma conferência enquanto as milícias do Irã e o Hezbollah continuarem com sua invasão à Síria", disse o líder opositor George Sabra.

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