Assad afirma que será candidato se houver eleições

Em entrevista à AFP, ditador diz que 'fugir não é uma opção', garantindo que não deixará a Síria em virtude da crise

Andrei Netto, Correspondente - O Estado de S.Paulo / Com France Presse

21 de janeiro de 2014 | 02h00

PARIS - Às vésperas da cúpula que debaterá na cidade suíça de Montreux o destino da guerra civil da Síria, o presidente Bashar Assad confirmou sua disposição de disputar eleições em junho.

A eventual candidatura contraria as pressões de rebeldes, dos EUA, de europeus e monarquias árabes, e põe em perigo as negociações internacionais que giram em torno do princípio de um exílio negociado para o chefe de Estado e sua família.

A entrevista foi concedida à AFP no domingo, no Palácio do Povo, sede do poder em Damasco. "Considero que nada impede que eu me apresente como candidato à eleição presidencial prevista para junho. Se a opinião pública desejar, eu não hesitarei um segundo em fazer isso", garantiu. "Pode-se dizer que há fortes chances de eu me apresentar como candidato."

Há 15 dias, em Paris, o secretário de Estado americano, John Kerry, e o ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, reafirmaram que não aceitariam a permanência de Assad no poder. A saída do ditador é uma condição imposta pela Coalizão Nacional Síria (CNS), o maior grupo de oposição armada secular do país.

Na entrevista, Assad descartou a possibilidade de deixar a capital síria com sua família em direção ao exílio. "Fugir não é uma opção nesse caso. Eu devo estar nas primeiras filas dos defensores da pátria. Este é o cenário desde o primeiro dia."

Tirada. Assad não poupou ataques à oposição, acusando-a de "terrorismo" e de subserviência aos interesses da Arábia Saudita, do Catar, da França e dos Estados Unidos. Além disso, ironizou as informações de que opositores controlam 70% do território do país.

"Eles vêm à fronteira por meia hora e fogem. Como podem se tornar membros de um governo? Como um ministro pode exercer suas funções do exterior?", questionou, referindo-se à direção da Coalizão Nacional Síria, que tem sede na Turquia. "Não se trata de uma revolta popular contra um regime que oprime seu povo, nem de uma revolução com vistas à democracia e à liberdade, como os órgãos de mídia ocidentais quiseram apresentar as coisas. Estamos diante de uma única parte: as organizações terroristas extremistas, independentemente de como são chamadas pela mídia ocidental."

Para o cientista político, historiador e ex-diplomata Jean-Pierre Filiu, professor do Instituto de Estudos Políticos (Sciences-Po) de Paris e especialista em Síria, Assad chega a Genebra 2 em posição de força. "O ditador quis levar os sírios a esse estado de espírito desesperado, para que aceitem fazer o que for necessário para que esse horror pare", diz, advertindo que não espera nada da negociação dessa semana. "As conferências mal preparadas são piores do que as guerras bem-feitas. Elas não resolvem o problema, elas o pioram."

Para Filiu, a solução para a guerra civil síria depende mais de um acordo interno entre as forças em conflito do que da comunidade internacional. "O calvário do povo sírio foi agravado desde Genebra 1, quando o número de vítimas diárias dobrou, assim como o fluxo de refugiados."

Assad vem regularmente concedendo entrevistas a veículos da imprensa ocidental, tentando demonstrar que retém controle absoluto sobre seu país. Após quase três anos, a guerra civil síria já deixou mais de 130 mil mortos e milhões de civis foram obrigados a deixar suas casas, tornando-se deslocados internos ou fugindo para países vizinhos - a Turquia, o Líbano, a Jordânia e o Iraque.

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