Assad aproveita crise ucraniana

ANÁLISE:

Liz Sly*, The Washington Post/O Estado de S.Paulo

11 de março de 2014 | 02h05

O presidente da Síria, Bashar Assad, aproveita a divergência entre Rússia e EUA sobre a Ucrânia para seguir adiante com o projeto de esmagar a rebelião contra seu governo. O colapso, no mês passado, das conversações de paz em Genebra, reduziu consideravelmente as escassas perspectivas de um acordo negociado.

"A reação do presidente russo, Vladimir Putin, à destituição de seu colega ucraniano, Viktor Yanukovich, fortaleceu ainda mais a convicção de Assad de que continuará contando com a Rússia", disse Salem Zahran, analista sírio. "O regime acredita que agora os russos têm uma razão ainda mais forte para manter Assad no poder. Qualquer conflito internacional que distraia a atenção dos americanos reduz a pressão sobre a Síria."

Na sexta-feira, Putin rejeitou o pedido de Barack Obama de retirar suas tropas da Crimeia. "A Rússia não pode ignorar os pedidos de ajuda e age para atendê-los, cumprindo plenamente o que determina o direito internacional", disse Putin. A guerra síria é apenas uma entre um grande número de questões a vulnerabilidade dos interesses americanos com o surgimento, mais uma vez, das tensões da era da Guerra Fria. O acordo nuclear com o Irã e as conversações de paz israelenses-palestinas também dependem da cooperação de Moscou.

Em um desdobramento menos notado, nos últimos meses, aliados americanos, como Egito e Iraque, agora ambivalentes, concluíram importantes acordos de fornecimento de armas com Moscou, em grande parte incentivados pela preocupação com a relutância do governo Obama em se envolver nos confusos resultados da Primavera Árabe.

"A maioria dos países árabes permaneceu calada na questão da crise ucraniana. Alguns deles poderão até aderir à órbita russa se Washington mostrar alguma vacilação", disse Theodore Karasik, do Instituto para o Oriente Médio e de Análise Militar do Golfo, com sede em Dubai. "Eles consideram a Rússia um parceiro presente e futuro muito importante na região, porque os americanos estão recuando."

Entretanto, é na Síria que as tensões entre EUA e Rússia terão impacto mais imediato. Durante três anos, desde o início do levante sírio, a política de Obama tem como base o pressuposto de que a Rússia seria um parceiro disposto a ajudar a convencer Assad a abandonar o poder. "Essa política agora está sendo definida como fora da realidade", disse Amr al-Azm, professor de história da Universidade Shawnee State. "O fato de Putin defender Yanukovich significa que três anos de diplomacia síria saíram pelo ralo. Trata-se de um enorme fracasso para a Casa Branca."

* Liz Sly é jornalista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.