Assad consolida poder sobre noroeste da Síria

Damasco aplica estratégia de terra arrasada contra focos de rebeldes na Província de Idlib, obrigando opositores a recuar; eleição é remarcada

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL, HACIPASA, TURQUIA, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2012 | 03h01

Fortalecido pelo apoio militar da Rússia e pela falta de coesão da comunidade internacional sobre como agir em relação à Síria, o regime de Bashar Assad partiu ontem para a consolidação do seu controle sobre o noroeste do país, implementando sua estratégia de terra arrasada na Província de Idlib.

Em mais um gesto destinado a ser rejeitado pela oposição, o governo remarcou para 7 de maio eleições parlamentares antes previstas para este mês, mas adiadas em razão de um referendo em fevereiro sobre a reforma da Constituição.

O Estado ouviu ontem vários relatos de combatentes, no noroeste da Síria e na área da fronteira com a Turquia, sobre bombardeios aparentemente aleatórios nos vilarejos ao norte de Idlib. Segundo esses relatos, o Exército sírio tem empregado tanques, canhões de morteiro, artilharia antiaérea de 14,5 mm e foguetes portáteis (RPGs) contra prédios e casas. Os combatentes do Exército Livre da Síria (ELS), armados apenas de fuzis, RPGs e espingardas de caça, têm se retirado para as montanhas.

O grupo Human Rights Watch, com sede em Nova York, divulgou ontem um relatório no qual afirma que o Exército sírio está minando a fronteira com a Turquia, com o objetivo de evitar a passagem de armas e suprimentos para os rebeldes. No ano passado essa medida já tinha sido tomada na fronteira com o Líbano. Ambas as áreas têm grande trânsito e as minas põem em risco a população local, advertiu a organização.

O líder do Conselho Nacional Sírio, Burhan Ghalioun, disse ontem que o objetivo da oposição é uma saída negociada para o conflito, mas se isso não for possível a comunidade internacional cumprirá as promessas de fornecer armas aos rebeldes. Ghalioun fez a declaração após se encontrar em Ancara com o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, que no sábado e no domingo se encontrou com Assad, mas não obteve concordância com seu plano de cessar-fogo, libertação de prisioneiros políticos e acesso irrestrito das agências humanitárias à população síria.

O chanceler da Rússia, Sergei Lavrov, reagiu ontem às pressões dos EUA para parar de fornecer armas à Síria, afirmando que seu país "cumprirá os contratos firmados" com os sírios. Um comitê de 17 senadores havia recomendado na segunda-feira que o Departamento de Defesa americano suspendesse a compra de helicópteros, fabricados pela mesma empresa que fornece armamento para a Síria.

De acordo com o relatório do comitê, a Rosoboronexport, controlada pelo Estado, vendeu 36 caças para Síria, por cerca de US$ 1 bilhão. Ao mesmo tempo, a empresa vendeu 21 helicópteros Mi-17 para os Estados Unidos, para serem empregados pelas Forças Armadas do Afeganistão, por US$ 375 milhões. Ou seja, o negócio com a Síria representa quase o triplo do valor pago pelos americanos.

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