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Assad decreta multipartidarismo na Síria enquanto esmaga opositores

Iniciativa de líder sírio é recebida com ceticismo por potências ocidentais como EUA e França, já que Assad descumpriu várias promessas e continua com a violenta repressão na cidade de Hama, onde mais de 170 pessoas foram mortas desde domingo

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / NOVA YORK

O regime sírio anunciou ontem uma série de medidas políticas supostamente liberalizantes, incluindo o multipartidarismo, ao mesmo tempo que suas forças de segurança intensificaram as operações militares na cidade de Hama, foco da oposição, onde mais de 170 pessoas foram mortas desde o domingo.

Estas iniciativas do governo de Damasco foram encaradas com ceticismo por potências ocidentais como EUA e França. Elas foram anunciadas um dia depois de uma declaração presidencial no Conselho de Segurança da ONU condenar a violência das forças de Bashar Assad.

Em anúncio publicado na agência de notícias estatal síria Sana, o regime de Damasco afirma que "os cidadãos da República Árabe da Síria têm o direito de estabelecer partidos políticos". Segundo a determinação de Assad, estas agremiações "não poderão ter como base religião, tribos, regiões ou profissões e tampouco poderão discriminar por etnia, raça ou sexo".

Caso sejam adotadas, estas serão algumas das maiores reformas políticas realizadas em um sistema autoritário no mundo árabe em décadas. Também atendem a demandas da comunidade internacional e de alguns membros da oposição - diversas facções exigem o fim total do regime, com a queda de Assad, sem que ele participe da transição.

O problema é que a iniciativa foi anunciada após uma série de promessas do líder sírio que acabaram não sendo concretizadas. Apesar de anunciar o fim da lei de emergência, o regime continua reprimindo protestos e prendendo opositores sem ordem judicial.

"Nós já vimos uma série de declarações vazias dele e fica difícil levar a sério as novas medidas", afirmou ontem o porta-voz do Departamento de Estado, Marc Toner, ao ser questionado sobre as reformas políticas anunciadas por Assad. Ele também ironizou o fato de o anúncio ser feito enquanto "as forças de segurança continuam atacando Hama". O governo da França, que tem assumido a vanguarda nas críticas ao regime sírio, considerou uma "provocação" o anúncio das liberalizações partidárias feitas por Assad.

Segundo ativistas de direitos humanos e opositores, cerca de 170 pessoas morreram apenas nos últimos dias em Hama, que tem tanques do Exército ocupando seu centro. O governo sírio nega este número e afirma que dezenas de soldados e policiais têm sido mortos por milícias armadas.

Desde março, mais de 2 mil pessoas teriam sido mortas em várias partes do país. Não há confirmação independente, pois Damasco proíbe a entrada de jornalistas estrangeiros.

Um bloqueio militar também impede o acesso de alimentos e remédios a Hama, que estaria vivendo uma crise humana. Quarta maior cidade da Síria, esta região é um tradicional reduto anti-Assad e também de extremismo religioso sunita. Segundo consultorias de risco político, há pressão interna sobre Assad por ele estar sendo "muito brando" na repressão contra a oposição. Em 1982, Hafez Assad, pai de Bashar, comandou uma operação para conter um levante em Hama, que resultou em mais de 20 mil mortos, no maior massacre da história moderna do mundo árabe.

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