Assad deve pagar

Síria não pode fazer EUA abrirem mão de sua credibilidade

Roger Cohen *, O Estado de S.Paulo / The New York Times

02 Setembro 2013 | 02h09

Sobre o ataque com armas químicas na Síria, que deixou centenas de pessoas mortas, o presidente Barack Obama afirmou que "concluímos que o governo sírio de fato realizou o ataque. E neste caso é preciso que haja consequências internacionais". Existem duas vozes presidenciais nesta declaração: a ativa e declarativa que observamos na primeira sentença, a passiva e impessoal na segunda. Elas expressam a vacilação de Obama com relação ao conflito sírio, que entrou no seu terceiro ano, com mais de 110 mil pessoas mortas e milhões desalojadas.

Este ainda é um mundo protegido e liderado pelos americanos. Se "há necessidade de haver consequências internacionais", então os EUA, em coordenação com aliados, e se possível com apoio da ONU, precisa levá-las a cabo. Obama traçou e retraçou uma linha vermelha com relação ao uso, na Síria, de armas químicas, um flagelo que praticamente todas as nações do mundo (189) repudiaram, firmando a Convenção sobre Armas Químicas e participando da Organização para a Proibição de Armas Químicas.

A credibilidade dos EUA é uma commodity já deteriorada, preciosa. Perdê-la contribuirá para um mundo traiçoeiro. Essa credibilidade não pode ser comprometida no caso da Síria. Um mundo em que o presidente Bashar Assad olha com desprezo o presidente dos EUA, e o tabu internacional sobre o uso de armas químicas é feito em pedaços, caminha numa direção perigosa.

Mas a população síria não merece algo melhor do que uma chuva de Tomahawks americanos acompanhada de uma estratégia ocidental para por fim ao conflito? Certamente ela merece algo melhor do que a tirania do regime Assad, três décadas depois do ataque devastador contra Hama, e merece um mundo melhor do que uma guerra que nunca acabará enquanto o clã Assad permanecer no poder.

Um ataque limitado que desestabilize Assad, comprometa suas forças e impeça Rússia e Irã de fornecer armas para o regime poderá, no melhor dos casos, trazer Assad para a mesa de negociação ou acelerar sua partida. No pior, a situação continuará a mesma (com o desmembramento gradual da Síria pela guerra civil) com uma maior "responsabilidade" americana. Como ocorre no pior dos casos, todos aceitam que a situação se mantenha igual.

A opção adotada até agora tem sido a inércia: não funciona. Persistir inativo e esperar que alguma coisa mude é inútil e insano. Embora a Rússia reaja enfurecida a qualquer ataque aliado ou dos EUA, sua cólera não irá além da retórica. (Ela também ficou irada com a queda do seu aliado Slobodan Milosevic da Sérvia, mas nada fez). O caminho diplomático para um acordo seria retardado, mas de qualquer modo não produziria nenhum resultado. Elementos jihadistas na Síria podem se beneficiar, mas nada os ajudará mais do que uma guerra prolongada como esta. O desgaste da guerra nos EUA e na Grã-Bretanha não é desculpa para renunciar a uma commodity de importância estratégica permanente - a credibilidade nacional - em favor de uma efêmera, a opinião pública.

Naturalmente, o precedente do Iraque, uma história de inteligência canhestra, é terrível. Por essa razão, antes de qualquer uso da força, os inspetores da ONU devem concluir sua missão na Síria, e deve ser debatida resolução na ONU proposta pelos britânicos acusando o governo sírio de um ataque letal com armas químicas e autorizando o uso da força (embora a Rússia deva bloqueá-la); e também Obama e o premiê David Cameron precisam apresentar provas de que o regime sírio foi o autor do ataque.

A legitimidade da intervenção militar pode ser vigorosamente defendida com base na lei (após Ruanda, Bósnia e Kosovo) da necessidade humana e a proibição internacional do uso de armas químicas. A "responsabilidade de proteger" não deve ser uma frase vazia. Às vésperas do 100.º aniversário da 1.ª Guerra, quando ataques com gás nos campos de Flanders produziram "lesões pulmonares tão terríveis quanto o câncer", sobre o qual o poeta britânico Wilfred Owen escreveu, os gases venenosos lançados pelo clã Assad não podem ficar sem resposta.

Dois outros elementos devem ser incluídos na frente diplomática. Obama deve invocar a convenção sobre armas químicas e chamar a Síria às suas responsabilidades por fazer parte do minúsculo grupo de nações que não aderiu ao tratado. O Ocidente também precisa descobrir o que pensa o novo presidente iraniano, Hassan Rohani, que fez um apelo vigoroso para a proibição do uso de armas químicas ser mantida.

*Roger Cohen é jornalista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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