Assad diz à TV russa que manterá ataques à oposição

Ditador sírio afirma, na 1º entrevista em 6 meses, que radicais religiosos e mercenários precisam ser combatidos, apesar de acordo

BEIRUTE, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2012 | 07h44

Na primeira entrevista em quase seis meses, o presidente sírio, Bashar Assad, disse ontem que seu governo capturou mercenários estrangeiros que estão lutando ao lado da oposição, tentando mostrar que suas forças estão combatendo terroristas e não ativistas que lutam pela democracia.

Em entrevista a um canal de notícias russo, Assad reiterou não ter nenhuma intenção de abrandar sua posição, apesar de ter se comprometido com um plano de paz que inclui um cessar-fogo. O ditador disse que a decisão do opositor Conselho Nacional Sírio de boicotar as eleições parlamentares este ano desacreditou o grupo.

"Apelar a um boicote às eleições equivale a apelar a um boicote às pessoas", disse ele. "E como você pode boicotar pessoas das quais se considera representante? Portanto, não acho que eles têm algum peso ou significado na Síria."

"Há mercenários estrangeiros. Eles estão sendo presos e estamos prontos para exibi-los ao mundo", declarou.

A última entrevista concedida por Assad foi a Barbara Walters, da rede americana ABC, em dezembro. O fato de dar preferência, agora, a um canal estatal russo não é casual. A Rússia tem sido o aliado mais leal e poderoso da Síria durante todo o tempo que dura a sublevação, vendendo armas para o regime e bloqueando todas as ações contra Damasco no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A repressão por parte do regime sírio contra um levante popular que dura 14 meses já deixou milhares de mortos e levou à condenação internacional. Mais de 200 observadores das Nações Unidas foram enviados à Síria para monitorar um acordo de cessar-fogo, que tem sido repetidamente violado por ambos os lados desde que passou a vigorar, em 12 de abril.

Num novo golpe contra os esforços de paz, os monitores também se viram envolvidos na violência. Uma equipe de observadores foi retirada ontem de uma cidade ao norte da Síria, um dia depois de uma bomba atingir seu comboio, deixando-os sem condições de avançar e tendo de permanecer sob a proteção das forças rebeldes.

Os veículos da equipe foram danificados pela explosão durante uma missão na cidade de Khan Sheikhoun. Nenhum dos observadores ficou ferido.

O ataque, que ocorreu na terça-feira, foi realizado minutos depois de testemunhas afirmarem que forças governamentais dispararam contra pessoas que acompanhavam um funeral, em mais um golpe contra o plano de paz do enviado da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, e os esforços das Nações Unidas para monitorar o cumprimento do cessar-fogo.

Na semana passada, uma outra bomba, plantada numa estrada, atingiu um caminhão militar sírio no sul país, segundos depois de o líder da equipe norueguesa de observadores da ONU, o major Robert Mood, passar pelo local num comboio.

O porta-voz da ONU na Síria, Hassan Seklawi, disse que a equipe bloqueada na terça-feira foi resgatada em torno do meio-dia de ontem.

"Eles partiram num comboio na direção de Hama", disse Seklawi. Mesmo com a violência tomando conta da Síria, Assad declarou à TV russa que o país apoia sua agenda de reformas.

O governo elogiou a eleição do dia 7 - cuja lisura foi fortemente atacada pelos opositores -, qualificando-a como um marco nas prometidas reformas políticas. Para a oposição, a votação foi uma farsa orquestrada pelo regime para fortalecer o controle de Assad.

Ainda ontem, uma autoridade turca disse que a situação na Síria e a possibilidade de uma intervenção da Otan devem ser debatidas durante a cúpula da aliança atlântica em Chicago na segunda-feira. Até agora a comunidade internacional tem mostrado pouca disposição para envolver-se em mais um conflito numa nação árabe. A autoridade, sob condição de anonimato, disse que a Otan poderá se envolver se o CS da ONU aprovar uma intervenção - medida considerada improvável por causa do apoio da Rússia e da China ao presidente Assad. / AP

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