Assad é acusado de usar Scud e mais países reconhecem aliança rebelde

Forças sírias leais ao presidente Bashar Assad dispararam mísseis Scud contra alvos controlados por combatentes rebeldes, afirmaram ontem fontes da Casa Branca. A operação é um sinal da escalada da violência no conflito sírio, que já dura há quase 2 anos e deixou mais de 40 mil civis mortos, e aumenta as suspeitas de que o regime estaria pronto para usar armas químicas.

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2012 | 02h08

Os mísseis Scud-C, fornecidos pela extinta União Soviética, têm capacidade para carregar ogivas químicas e foram utilizados pelo ditador iraquiano Saddam Hussein contra países da região que apoiavam os EUA na primeira guerra do Golfo em 1991. Damasco possui ainda um número limitado de Scud-D, que podem atingir um alvo a 700 quilômetros - 200 quilômetros a mais do que a versão anterior.

O governo de Barack Obama vê o uso de mísseis Scuds pelas forças sírias como sinal da "escalada significativa" dos conflitos e de que o regime de Assad está se sentindo pressionado, uma vez que esse tipo de armamento é mais utilizado para defesa, explicou um funcionário de alto escalão da Casa Branca, também na condição de anonimato.

"Usar mísseis Scuds contra alvos como tanques e bases militares é uma coisa", disse. "Usá-los contra rebeldes escondidos no playground de escolas é outra."

Nas últimas semanas, os rebeldes conquistaram postos táticos importantes, como duas bases militares no norte do país; tomaram armas de defesa aérea e as usaram contra aviões sírios; romperam o cerco das forças leais ao ditador em torno de Alepo, a segunda maior cidade da Síria; e avançam na direção de Damasco, onde um atentado a bomba atingiu ontem o prédio do Ministério do Interior, deixando 5 mortos e 23 feridos.

As forças de Assad dão sinais de debilidade, o que pode levar o governo a ações "desesperadas", avaliam autoridades americanas. Dois funcionários da Casa Branca, que pediram anonimato, confirmaram ao New York Times que mísseis Scuds foram disparados de Damasco contra áreas controladas pelo Exército Sírio Livre (ESL), um dos grupos de oposição, no norte do país.

A Casa Branca, no entanto, não deu detalhes sobre os alvos atingidos ou sobre como as autoridades conseguiram monitorar os mísseis. Mas sabe-se que a inteligência americana tem acompanhado os conflitos na Síria de perto por meio de vigilância aérea e outros métodos, em parte por temer que Assad recorra ao uso de armas químicas.

Até a noite de ontem, não havia informações sobre o número de mortos e feridos na operação. Especialistas da área militar acreditam que o regime de Assad tenha decidido usar mísseis de maior alcance para "limpar" bases militares conquistadas pelos rebeldes e destruir o arsenal em posse deles. Na noite de terça-feira, o Comitê de Coordenação Local, ligado aos rebeldes, já havia alertado para o uso de "mísseis terra-terra capazes de carregar ogivas químicas".

Legitimidade. A Casa Branca não se pronunciou oficialmente. O vazamento da informação sobre o uso dos mísseis veio no mesmo dia em que representantes de 144 países e organizações de apoio ao movimento de oposição a Assad, reunidos no Marrocos, reconheceram a Coalizão Nacional das Forças de Oposição e da Revolução Síria, como legítima representante do povo sírio.

A declaração adotada no encontro pede que Assad se retire para permitir uma "transição política sustentável", após meses de derramamento de sangue, e promete uma "resposta séria" contra o uso de armas químicas e biológicas pelo regime.

O líder da coalizão, xeque Ahmad Moaz al-Khatib, não concorda, no entanto, com a inclusão da Frente Nusra na lista de organizações terroristas da Frente Nusra, um dos grupos que lutam com os rebeldes, um dilema para os EUA. "Podemos diferir de partes que adotam visões e ideias políticas diferentes das nossas. Mas garantimos que o objetivo de todos os rebeldes é a queda do regime".

Nenhum grupo assumiu a autoria dos atentados de ontem contra o Ministério da Informação, mas esse tipo de ação tem sido a marca de radicais islâmicos, o que aumenta a preocupação da comunidade internacional quanto ao papel desses grupos na guerra civil síria. / REUTERS, AP e NYT

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