Assad faz acordo com rebeldes sírios e solta 2 mil presos

Em pacto inédito mediado por Turquia, Catar e Irã, opositores são trocados por 48 iranianos em poder de insurgentes desde agosto

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2013 | 02h03

O regime de Bashar Assad e rebeldes sírios realizaram ontem um amplo intercâmbio de prisioneiros, algo inédito em quase dois anos de guerra civil. Mais de 2 mil opositores, incluindo mulheres e crianças, foram soltos por Damasco em troca de 48 iranianos que estavam em poder dos insurgentes desde agosto.

Organizações humanitárias e os governos de Turquia, Catar e Irã mediaram o acordo. Os dois primeiros dão forte apoio aos rebeldes. Teerã, do outro lado, é o principal aliado de Damasco na região. A troca ocorreu três dias depois de Assad realizar o primeiro pronunciamento em seis meses, no qual indicou que não pretende deixar o poder nem buscar uma solução negociada com os principais grupos de oposição da Síria.

Segundo o Exército Sírio Livre (ESL), de oposição, os iranianos capturados eram da Guarda Revolucionária, a força pretoriana da república islâmica, e estavam em território sírio para auxiliar Assad na repressão à dissidência. Teerã nega a informação, dizendo que o grupo viajou à Síria em razão de uma peregrinação religiosa - eles foram emboscados em Sayida Zainab, perto de um importante santuário xiita. Ontem, porém, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi, reconheceu que alguns dos prisioneiros serviram nas forças iranianas.

Em março, a rebelião síria completa seu segundo aniversário. Segundo cálculos das Nações Unidas, mais de 60 mil sírios morreram em meio à guerra civil e pelo menos 500 mil civis foram obrigados a fugir do país em razão da violência.

Os 48 iranianos foram levados ao Sheraton de Damasco em vans brancas sob forte escolta de militares sírios. Os ex-prisioneiros abraçaram com festa o embaixador do Irã em Damasco, Mohamed Riza Shibani, e outros funcionários da missão de Teerã que os esperavam no lobby do hotel.

Shibani afirmou que o acordo foi resultado de "duras" negociações. "Espero que tragédias como essa não se repitam", afirmou. A Síria não comentou publicamente a troca de prisioneiros. Segundo a TV de Teerã, todos os iranianos passam bem e retornarão "em breve" ao Irã.

Um porta-voz dos rebeldes sírios disse que o fato de Assad ter exigido a libertação de iranianos, e não de militares sírios em poder da insurgência, é prova de que o ditador "não passa de uma marionete de Teerã".

"Ele não se importa com seus soldados que ainda estão presos por nós", provocou Louay Moqdad, do ESL. Segundo ele, mulheres e crianças de 13 a 15 anos estão entre os prisioneiros que deixaram as cadeias do regime sírio.

"Os prisioneiros opositores foram levados inicialmente para o prédio do Ministério do Interior, onde tiveram suas ordens de soltura assinadas por um juiz", afirmou Moqdad. Depois, eles foram divididos em grupos e levados para diferentes instalações das forças de segurança de Assad.

Um integrante da organização turca que ajudou a mediar o acordo disse que Damasco libertou, ao todo, 2.130 opositores. O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, comemorou a notícia da troca de prisioneiros, mas lamentou que muitos ainda continuem nas prisões de Assad.

"Vamos torcer para que eles também sejam soltos", disse o premiê turco durante viagem ao Níger. Até pouco tempo, Erdogan era aliado de Assad. Segundo ele, quatro cidadãos turcos e "vários" palestinos estão entre os libertados. / AP e WPOST

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